Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Autobiografia: construindo temas para Pesquisa Educacional
por Rildo Ferreira

Trabalho realizado para a segunda avaliação da disciplina Prática e Pesquisa da Educação III da Faculdade de Pedagogia da Universidade Estácio de Sá, campi Nova Iguaçu, Rio de Janeiro.

Resumo]
O texto trata de resgatar a trajetória de vida escolar fazendo uma ponte com a realidade atual, pois busca encontrar fatos que podem servir de tema para pesquisa educacional. Ele começa se reportando a outro texto, se reporta a chegada do autor ao Rio de Janeiro e sua introdução na vida escolar. Procura detalhar os fatos que foram marcantes e ignora aqueles cuja memória não permitiu uma reconstituição com fidelidade. Ao final apresenta cinco temas identificados no texto, e dos cinco, destaca dois que considera importante para uma pesquisa mais amiúde.

I – Introdução
O texto que apresento a seguir é uma reconstituição da minha trajetória de vida escolar. Procurei relembrar dos passos que me trouxeram à universidade e de toda a problemática vivida por mim em cada etapa educacional. Não foi fácil reconstituir o período escolar da minha infância. Esta eu queria definitivamente esquecer, tamanho foi o sofrimento vivido, e parte dessa trajetória a memória já havia bloqueado.

Vou dividir o texto em algumas partes. A primeira delas me leva até o momento em que abandonei a escola na segunda metade da década de 1970. Neste primeiro momento eu destaco que aprendi mais fora da escola que dentro dela. A segunda parte resgata o período que fiquei fora da escola e competindo no mercado de trabalho, competição que me via desfavorecido sem uma escolaridade que me garantisse permanência no emprego. Então eu começo uma terceira parte que é a que me leva de volta à escola. Por fim, uma quarta parte que relembra um longo período fora da sala de aula o que me distanciava do ensino superior, mas graças a um programa social do governo federal, volto à estudar, agora na academia de Pedagogia.

Em cada etapa abordo temas como tecnologias, bullying, evasão escolar, saberes constituídos na prática comunitária, o exercício do poder na sala de aula entre outros que servem de temas para pesquisa educacional. Ao fim, apresento cinco distintos temas e destaco dois como de importância pessoal para uma pesquisa educacional mais acurada. Vamos ao texto.

II – A chegada no Rio de Janeiro e a primeira escola

Quero começar esse texto relembrando outro que já foi postado no meu blog e que tem o título de Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes. Nesse texto eu tentei mostrar que os novos recursos tecnológicos tiraram da criança a oportunidade de experimentar viajar num mundo inteiramente imaginário, longe dos personagens cibernéticos criados e impostos como opção para uma aventura infantil. A nova geração nasce em berço multimedia, com portas para um mundo virtual onde o pensar não faz parte do programa. Com os novos recursos da chamada terceira revolução, o pensar não se distancia muito de “devo ou não apertar o botão ‘power?’” e a partir dele entrar numa aventura pré-definida, programada, mas inteiramente legitimada pela nova geração.

No texto Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes resgato o tempo da minha meninice e o que era preciso fazer para brincar. Naquele tempo, os pobres tinham que criar suas próprias brincadeiras; ouvir histórias dos mais velhos e inventar outras; criar um mundo imaginário, com personagens igualmente imaginários ou, quando muito, personagens dos programas de TV. Poucas eram as crianças que dispunham de brinquedos industrializados. Nossos carrinhos eram feitos de pedaços de madeira e latas vazias de sardinhas; nossos bonecos eram feitos com trapos de panos; nossas bolas feitas com meias velhas ou de jornal velho. Apesar da precariedade e da pobreza, nossas brincadeiras eram riquíssimas em criatividade e imaginação. Éramos capazes de criar histórias cheias de sinistros para serem contadas nos dias de lua-cheia. Bem, mas essa era a parte boa da história, no texto Infâncias de Ontem e de Hoje: diferenças determinantes eu não tratei do meu período escolar, por exemplo, e que não me trazem boas recordações.

Para que eu possa dissertar sobre esse período na escola, preciso relembrar como chegamos ao Rio de Janeiro. Não me lembro de onde vínhamos, sei, entretanto, que ao chegar a Austin, na Baixada Fluminense, o sol castigava a todos os descobertos. Miúdos e esfarrapados, cansados da viagem e famintos, caminhamos por cerca de dois quilômetros para chegar à casa de um primo de meu pai. Meu pai, aliás, não sabia que estávamos no Rio. Minha mãe nos trouxe de surpresa, fugindo de uma miséria incomensurável das terras mineiras. Poucos meses depois da nossa chegada, fomos matriculados numa escola privada por benevolência da proprietária. Esta foi minha primeira experiência escolar no Rio de Janeiro; traumática, haja vista que íamos descalço para a escola e, mormente, éramos vítimas de bullying; chacota para os meninos da sala de aula que teimavam em zombar da nossa miséria.

Um ano depois, já com ajuda de meu pai, mudamos para um endereço próprio. A partir daí a experiência escolar era traumática já na matrícula, pois para se conseguir uma vaga na escola pública, era necessário dormir vários dias numa fila enorme e sofrer, além da fome e da zombaria, do frio que a noite trazia. Não me recordo muito bem da alfabetização, salvo do caderninho de caligrafia que me parecia castigo ao fazer o exercício, dada a quantidade de vezes que se repetia letras e símbolos. Aliás, nos dias atuais, ainda é possível ver castigos dessa natureza, onde o aluno é levado a copiar dezenas, centenas de vezes uma oração de impacto tipo, não devo fazer isso... Não devo fazer aquilo... O que me vem à memória com mais freqüência foi do período de 5ª. a 8ª. séries. Me lembro no dia em que minha irmã mais velha, substituindo minha mãe, foi à escola para ouvir uma reclamação da professora de inglês porque eu insistia em ficar desenhando quando ela estava a “ensinar” o dever. Ora, na ocasião nada me ocorria senão um desejo muito grande de desenhar. Nesta ocasião, e por conta dos nossos jogos de futebol num campinho do bairro, criei um jornal manuscrito para produzir notícias dos nossos jogos e eu ilustrava o jornal com meus desenhos, como se fossem as fotografias de um jornal impresso.

Parece incrível, mas ninguém se atreveu a me dar a atenção que eu desejava. Aquela reclamação serviria para ofuscar um desejo meu que em nada atrapalhava o meu aprendizado. Pelo contrário, até ajudaria se fosse trabalhado de maneira a aproveitar aquele interesse para então enriquecer o meu aprendizado. No jornal manuscrito, poderiam me ajudar na produção de texto, na correção gramatical, na introdução de novas palavras para melhorar o vocabulário etc., mas, ali, o professor não tinha o interesse no meu aprendizado, pelo menos naquilo que me interessava. Para ele (o professor), interessava um conteúdo previamente determinado por aquilo a que chamam de livro didático e que lhes foram impostos por um sistema que procurava perpetuar o status quo, de modo que deixava claro que o poder estava circunscrito a uns poucos, enquanto que para a maioria lhes bastava alfabetização de conteúdos longe de suas necessidades. E assim, com interesses diferentes, professor e aluno se distanciavam e eu fui aprendendo a produzir textos muito mais pela prática ao longo dos dias que por intermediação do educador. A gramática, tão imperativamente defendida pelos gramáticos como ensino obrigatório, era um enigma e algo visto por mim como inalcançável. Minhas condições históricas não me permitiam um envolver no aprender da maneira como era ‘transmitido’ tal conhecimento.

Também neste tempo a manifestação do poder condigno (Galbraight, 1979) era claro entre a escola, aqui entendida como diretores, professores e funcionários, e os alunos. Muitas vezes fui levado à secretaria e lá deixado de castigo. Não se mensurava qual o prejuízo moral era causado ao aluno castigado. Estes eram simplesmente retirados da sala de aula e deixados na secretaria até que a diretora resolvesse lhe tomar satisfação e determinar a punição que reforçaria o poder condigno. É importante salientar que estamos falando de um período cujo regime autoritário sob o comando dos militares era o vigente, e os professores adotavam a régua escalonada como palmatória para o castigo já na sala de aula. Nós alunos, éramos brutalmente violentados em nossos direitos mais elementares e caía sobre nós um pavor brutal do corpo docente, inclusive dos funcionários como merendeiras, faxineiros e vigias. Os inspetores de disciplina saíam às ruas em busca dos gazeteiros. Uma vez encontrados, eram levados ao castigo. A escola aqui representava o Estado autoritário e seu corpo docente reproduzia os mecanismos de coerção, de intimidação, no singular exercício do poder condigno, como disse Galbraith no seu trabalho sobre a Anatomia do Poder:

  • Por estar associado tanto à propriedade quanto à personalidade e por ter acesso a todos os instrumentos de coerção, o governo é uma instituição peculiarmente forte, de poder excepcional. Por isso seu poder é inevitavelmente encarado com temor, muitas vezes com pavor, e em todas as sociedades civilizadas concorda-se em que deve haver limites ao seu exercício. Pensa-se, em especial, que deve haver limites ao uso do poder condigno (Galbraith, 1999: p. 72)

E era assim mesmo. A escola esforçava-se para semear o medo, independente dos efeitos que provocaria no aprendizado dos alunos, e o corpo docente fazia isso de modo muito natural. Era o governo exercendo o poder condicionado sobre uma massa acrítica, que já fora ‘treinada’ para reproduzir a sociedade tal como ela se apresentava, como disse Althusser (1985), que bastava assegurar à força de trabalho as condições materiais de sua reprodução para que se reproduza como força de trabalho, e que na escola podia-se aprender a ler e a escrever, mas aprendia-se, sobretudo, as ‘regras’ de bom comportamento e funcionava como um Aparelho Ideológico de Estado através da ideologia e da repressão, seja ela atenuada, dissimulada ou mesmo simbólica (Althusser, 1985: p. 70). Althusser disse mais: A escola é o pior dos Aparelhos Ideológicos de Estado. E porquê? Ele responde:

  • Ela se encarrega das crianças de todas as classes sociais desde o Maternal, e desde o Maternal ela lhes inculca, durante anos, precisamente durante aqueles em que a criança é mais “vulnerável”, espremida entre o aparelho de Estado familiar e o aparelho de Estado escolar, os saberes contidos na ideologia dominante (...), ou simplesmente a ideologia dominante (...), ou simplesmente a ideologia dominante em estado puro (...). Por volta do 16º ano, uma enorme massa de crianças entra “na produção” (p. 79)...

O medo de ser vitimado pelas agressões e repressões na escola, um conteúdo que era difícil de ser assimilado me afundava ainda mais na ignorância. Não demorou muito, vendo toda a dificuldade de me relacionar e de aprender, abandonei os estudos na segunda metade do ano quando cursava a sexta série.

III – O abandono escolar
Fiquei alguns anos sem ir à escola. Minha vida agora era dada ao trabalho para ajudar no sustento familiar. Como não era fácil conseguir emprego formal, restou-me a opção de embrenhar-me no trabalho informal. Fui ser feirante. Vendia laranjas e tangerinas e, não raramente, vendia doces e balas nos vagões de um trem ferroviário. Esse foi um período de grande aprendizagem. Foi exercendo esta atividade que desenvolvi certa habilidade para os cálculos e conversando com um e com outro, adquiri um vocabulário mais apropriado para o tempo presente. Neste tempo eu tinha 12 anos. Mesmo sendo ainda muito menino meus pais não se importavam com esse meu destino. Para eles, desde que eu levasse dinheiro para casa e que não fosse de modo desonesto, se trabalhava ou estudava, ou se trabalhava e estudava, eu mesmo devia conduzir o meu destino. Não consigo medir qual a importância disso na minha vida; minha reclamação é com a falta de afetividade, de solidariedade, de família mesmo, tanto que eu me relacionava melhor com outras famílias que não a minha. É aqui que entra um personagem muito importante na minha vida e que, me reportando a ele neste texto, espero reconhecer justamente sua significação para mim. Talvez eu nunca tenha dado o justo reconhecimento do significado deste outro em minha vida, inclusive no meu aprendizado, e quero fazê-lo agora.

Dois anos depois de deixar de estudar eu consegui meu primeiro emprego com assinatura em carteira e foi Jorge Gonçalves, que era também menino como eu, era apenas um ano mais velho e trabalhava numa loja especializada que vendia roupas para ‘gordinhas’, quem me conduziu ao meu primeiro emprego formal com assinatura em carteira numa loja de cortinas e tapetes. Ali eu fazia a limpeza da loja e as entregas em domicílio. Mas não foi isto o que mais importante aconteceu nesta relação de amizade. O mais importante acontecia quando nada tínhamos para fazer nos dias de folga. Foi com ele e a partir dele que ensaiei meus primeiros poemas, ouvi e aprendi a admirar músicas brasileiras cuja letra fazia algum sentido e ‘inocentemente’ filosofávamos sobre os astros e algumas coisas terrenas. A partir daquelas curiosas observações, construíamos alguns saberes e outros que só vieram a ser ratificado ou retificado quando retornei à escola para concluir o meu primeiro grau.

As nossas observações sobre o sol, a lua e as estrelas eram de fato muito inocentes. Mas nada que hoje, sob o ângulo de uma Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire, se devesse desperdiçar. Ora, se o que falávamos sobre os astros era algo verdadeiramente falso, não seria a partir desse não saber sobre os astros, mas reconhecendo nas duas crianças uma curiosidade ingênua, que Paulo Freire (2005) começaria a orientação na construção de um conhecimento mais amiúde, mais científico? O querer saber por que a lua adquiria uma forma visível da terra parecida como uma ‘foice’, ou um C invertido, como chamávamos, tomava-nos boa parte da noite. A procura por estrelas cadentes e algumas observações sobre o motivo delas estarem se movendo de um lugar para o outro de maneira tão veloz fazia-nos imaginar coisas muito curiosas. Estas e outras observações permaneceram na ingenuidade por muito tempo por falta de um educador que nos levasse a um saber mais apropriado. Quanto às músicas até ali eu não tinha nenhuma afinidade com ela. Mas a partir daquele menino que cantava as canções da moda naquele tempo eu consegui aprender alguns acordes de violão. E a partir de então, comecei a comprar revistas às quais chamávamos de ‘modinhas’, que traziam as letras de músicas cifradas, ou seja, com os símbolos dos acordes necessários para tocá-las. O contexto desse movimento me levou a conhecer novas palavras e conhecendo-as, passei a escrever mais e mais, não somente como poemas para serem recitados, mas como músicas para serem cantadas. Eu afirmo categoricamente que aprendi muito mais no convívio com aquele menino, que ainda hoje não tem o segundo grau, que com os professores e professoras em sala de aula dos meus tempos de escola até os 12 anos. Jorge Gonçalves reside em Miguel Couto, bairro da cidade Nova Iguaçu, é hoje motorista de ônibus, evangélico, tem 5 filhos sendo 1 homem e 4 lindas meninas, todos me chamam de tio e exijo que meus filhos, se não desejam tratá-lo como um parente, que o respeite como merece.

Depois do serviço militar fiquei um bom tempo desempregado. Esse período desempregado foi importante para eu reconhecer que precisava voltar à escola. Sobre essas desgraças que caem sobre nós, mas que parecem agir como uma fênix, ou seja, nos oferece uma oportunidade de recomeço, há um artigo de Steve Jobs, criador da Apple, demitido da empresa que criou pelos acionistas, que mostra que uma dificuldade não pode ser o fim, mas o começo de uma nova etapa. Disse Jobs:

  • Não enxerguei isso na época, mas ser demitido da Apple foi a melhor coisa que podia ter acontecido para mim. O peso de ser bem sucedido foi substituído pela leveza de ser de novo um iniciante, com menos certezas sobre tudo. Isso me deu liberdade para começar um dos períodos mais criativos da minha vida. Durante os cinco anos seguintes, criei uma companhia chamada NeXT, outra companhia chamada Pixar e me apaixonei por uma mulher maravilhosa que se tornou minha esposa. Pixar fez o primeiro filme animado por computador, Toy Story, e é o estúdio de animação mais bem sucedido do mundo. Em uma inacreditável guinada de eventos, a Apple comprou a NeXT, eu voltei para a empresa e a tecnologia que desenvolvemos nela está no coração do atual renascimento da Apple (Jobs, internet).

Jobs foi demitido da empresa que criou, o que poderia deprimi-lo a ponto de colocá-lo numa situação de ostracismo, mas não foi assim o que aconteceu, ele viu na desgraça acontecida, uma oportunidade para recomeçar e avançar ainda mais. Quanto a mim, estar desempregrado foi motivo de muita reflexão e questionamentos como De que maneira conseguir um bom emprego se não tenho profissão? Se não tenho profissão qualificada, como conseguir um bom emprego se não tenho escolaridade? Quando questionei sobre minha formação decidi que precisava voltar à escola. Antes de voltar à escola, passei por um núcleo do SENAI para aprendizagem sobre eletricista de manutenção e instalação. Era uma tentativa de me profissionalizar para conseguir um emprego que me proporcionasse autonomia com mais dignidade, já que o alimento, embora garantido pelos pais, era muito ‘pobre’. Para se ter uma idéia do que isto significa, meu pai comprava carne que lhe serviria para a ‘marmita’, aos que ficavam em casa, arroz e feijão e só. Nada de carne, nada de legumes. Algumas verduras raramente. Deste investimento (no SENAI) fui convidado a fazer a instalação elétrica do salão paroquial da Igreja de São Sebastião em Austin, distrito de Nova Iguaçu. Ao concluir o trabalho, fui então convidado para atuar como voluntário na campanha contra a Dengue e eu aceitei. Para meu espanto e – boa! – surpresa, esse voluntariado receberia uma bolsa de salário mínimo e meio e duraria por seis meses. Este período, já na segunda metade dos anos 1980, reforçou-me reconhecer a necessidade de uma escolaridade maior. Não que eu me mostrasse incompetente, ao contrário, sempre era chamado para uma determinada função, nisso eu via méritos em mim, mas esbarrava na baixa escolaridade. Indiferente a isso, no ano seguinte eu e outras 249 pessoas foram contratadas pela extinta Superintendência de Campanhas de Saúde Pública – SUCAM onde permanecemos até os dias atuais, não mais como SUCAM, mas como Fundação Nacional de Saúde – FUNASA.

IV – De volta à escola
O novo contrato me deu a segurança que eu precisava para voltar à escola. Para concluir o primeiro grau, voltei para o ensino supletivo numa escola pública, este sistema que acelera a formação dos que já superaram a idade escolar. Mais experimentado, já conseguia determinada sintonia com o ensino aplicado, embora percebesse ali que o processo de aceleramento deixava muitas coisas importantes escapulirem a construção do saber. Concluída a primeira etapa, ou seja, a 8ª série do primeiro grau, matriculei-me imediatamente no segundo também numa instituição pública. Não queria perder aquilo que me estimulava a continuar. Foram três anos para uma formação geral, mas com muitas falhas. Faltavam professores de biologia, física, sociologia e literatura. Algumas disciplinas eram aplicadas por professores sem o menor compromisso com a formação daqueles alunos, entre os quais eu me incluía. No primeiro ano tivemos aulas de filosofia. Particularmente me identifiquei com a disciplina e procurava participar das aulas de modo bem interativo, sentimento que não era compartilhado pelos meus colegas de turma. Sobre a turma, aliás, muito me preocupava o desinteresse deles pela aprendizagem, e talvez por isso eu não tenha conseguido articular um movimento para a melhoria das condições da escola. As carteiras eram muito ruins, algumas ficavam no canto da sala por completa inutilidade. Não raramente alguns colegas costumavam jogar as carteiras umas sobre as outras, a quebrar o ventilador de teto, e por mais que eu lhes chamasse a atenção sobre o prejuízo que estavam nos causando, eles ignoravam. O quadro negro também tinha problemas. Em parte dele já não era mais possível escrever. A iluminação também deixava a desejar. Tudo isso influenciava no processo ensino-aprendizagem. Os professores não se importavam com o desinteresse dos alunos e estes, por sua vez, aproveitavam-se da ‘ausência’ do professor para escapulir de algumas aulas e todos atribuíam ao governo as péssimas condições da escola.

Muito me preocupava o fato dos professores reproduzirem aquilo que estava pré-estabelecido no livro didático. Eu queria debater, saber a razão ou as propriedades de cada assunto que era colocado em pauta e, normalmente, os colegas me pediam para deixar o professor dar a aula dele, e o professor, por sua vez, reproduzia insistentemente o conteúdo do livro. Hoje eu consigo olhar para aquele tempo e ver que os professores, em grande número, nada sabiam para ensinar, apenas se orientavam pelo livro do professor para garantir a ‘transmissão de conteúdo’. Para mostrar que em toda regra há exceção, e neste caso eu quero dizer que a regra é a exceção, e a exceção torna-se regra, para explicar melhor, a regra era transmitir o conteúdo e não se importar com a formação dos alunos com uma práxis educativa básica, sem aprofundamento; enquanto a exceção era aprofundar as questões, debater e chamar a atenção de um e de outro para a importância do que estava sendo levado à sala de aula; então tive um professor de física que era esta exceção. Deficiente físico, provocado por uma paralisia parcial dos membros, o professor Emanuel era o mais eficiente deles. Ele não só aplicava o conteúdo como procurava mostrar empiricamente aquilo que ele estava dizendo. A meu ver ele sabia o que ensinar. Tivemos só o primeiro ano com ele e tudo o que sei sobre física devo a ele. Um outro professor, o de Inglês, era diametralmente oposto ao de física. Era o legítimo representante da ‘regra’. Como na turma havia um rapaz que cantava algumas canções em inglês, eles eram bem próximos, e com este professor Cléber, fui vítima da sua inaptidão para o exercício da práxis educativa. Quando tentava me aproximar para um aprendizado melhor, tentando balbuciar algumas palavras em inglês, o meu colega de turma e o professor Cléber riam zombeteiramente do modo como eu me colocava. Para não passar por ridículo acabei deixando de lado o falar inglês me limitando a apenas reproduzir aquilo que os exercícios pediam.

V – Universidade é um desejo, não produto de primeira necessidade
Mesmo com todas as dificuldades concluí o segundo grau. Se me perguntarem se estava pronto para ingressar na universidade passando pelo vestibular, minha resposta será um rotundo NÃO. Então fiquei por muitos anos apenas com o ensino básico. Estava conformado com o que já tinha conquistado em termos de estudos, afinal, já no serviço público federal, recebendo um salário acima da média dos salários praticados no Brasil, poderia me considerar um afortunado pela sorte. Mas na medida em que o tempo passava, e na medida em que fui percebendo o mundo em que vivemos e fazendo uma leitura mais politizada, percebendo que a capacidade ainda não é tudo, e que escolarização ainda pesa muito na escolha das melhores funções, a necessidade de avançar ainda mais na minha formação reapareceu. Daí um dilema: como enfrentar um vestibular, depois de 10 anos fora da sala de aula, competindo com os jovens que estão saindo da escola de segundo grau ou dos cursinhos de vestibulares? Sobre esse dilema eu escrevi um artigo que já fora publicado no meu blog para debater sobre cotas nas universidades. Neste artigo (Sobre Cotas na Universidade) escrevi:

  • Aqui precisamos discutir uma outra questão. Pobre, sendo branco ou negro, tem que trabalhar. Então, quando no nível básico ou médio, só lhes restam a Escola Pública. Esta sim, a serviço dos ricos sempre foi de baixa qualidade. Então o pobre, branco ou negro, sai da Escola Pública e vai procurar trabalho. O ensino superior é um desejo, não um produto de primeira necessidade. O trabalho vem antes da formação educacional por uma questão de sobrevivência, não de opção. Já o filho do rico estuda na escola privada, que garante bons salários e, portanto, atrai os melhores educadores. Quando terminam o ensino médio ingressam quase imediatamente num desses cursinhos pré-vestibulares intensivos. Parece até que os vestibulares das instituições superiores foram elaborados pelos donos dos cursinhos pré-vestibulares. Daí que o pobre, aquele que saiu da Escola Pública fica em enorme desvantagem em relação ao filho do rico. Então, quem ocupa as vagas nas instituições públicas de ensino superior? Os filhos dos ricos. E por isso nestas Universidades sempre tiveram os melhores profissionais. A qualidade sempre foi emblemática. E por quê? Porque ali só estudavam os filhos dos ricos. Pobres? Um ou outro talvez. Então a Universidade Pública era um espaço inacessível para pobres, negros e negras (Santos, 2008: internet)

Quero aqui resgatar uma discussão sobre a escola, a estatal – a que chamamos de pública – e a privada, tema que já foi abordado por autores como Saviani (1986), Davis (et. Al. 2002), Neves (1994) entre outros, e que trata de uma escola dual, ou seja, uma escola para os pobres e outra para os ricos, e mesmo esta destinada aos pobres foram criadas para a égide da classe hegemônica para a qual o Estado atuou brilhantemente a favor. Assim, a classe já favorecida historicamente freqüentava a escola privada até a formação do segundo grau. Esta escola contratava os melhores profissionais em educação e investia (investe até os dias atuais) maciçamente em recursos tecnológicos avançados para atender às necessidades da sua clientela. Em favor disso, o Estado contrata professores sem exigir qualificação apropriada para o exercício da práxis educativa e cria uma escola onde não há investimento que assegure recursos apropriados para uma educação de qualidade e é a escola para onde são levados aqueles que não podem freqüentar a escola privada por falta de recursos, ou seja, os pobres. A inversão das prioridades ocorre quando, tanto os pobres quanto os ricos, terminam a escolarização média. Como as Universidades Públicas historicamente se destinam à classe hegemônica, já que funciona em turnos diurnos, exigindo do egresso tempo disponível, passam a ser freqüentadas pelos ricos já que os pobres precisam buscar o mercado de trabalho para a sobrevivência. Sem poder freqüentar as Universidades Públicas diuturnamente, os pobres são levados às Universidades Privadas que funcionam precariamente no período noturno. Davis (et. al. 2002) diz que “Nos primeiros séculos de nossa história, a educação era restrita a poucos, privilégio de minorias econômicas”. Neves aprofunda a discussão. Ela diz:

  • Reconhecer na escola contemporânea o papel de formadora dos intelectuais orgânicos da burguesia e do proletariado não implica o desconhecimento do fato de que historicamente os sistemas educacionais capitalistas vêm desenvolvendo mecanismos de filtragem social para garantir o acesso diferenciado aos diversos graus e ramos de ensino que terminam por privilegiar o acesso e permanência no sistema escolar dos representantes da classe dominante e de seus aliados (Neves, 1994: p.24).

Então a escola que freqüentei tinha essa característica dual. Ali onde estudei estavam os que deveriam ficar naquela formação e não mais ascender para servir de mão-de-obra desqualificada e barata para perpetuação do status quo dessa classe hegemônica. Como disse Saviani (1986) era uma escola para reproduzir a sociedade tal como ela se apresentava, e analisando a teoria de Baudelot e Establet diz que é pior ainda: essa escola deveria não só “reforçar e legitimar a marginalidade que é produzida socialmente... [mas também tem por missão] impedir o desenvolvimento da ideologia do proletariado e a luta revolucionária” (p. 27).

Finalmente o novo século me trouxe novas esperanças. Um programa do governo federal que garante bolsas de estudos para quem estudou o ensino médio em escola pública ou foi bolsista em escola privada, denominado Universidade para Todos – ProUni me garantiu retomar meus estudos. Quero deixar claro que sem este programa dificilmente teria uma formação universitária. Para mim, a universidade pública, com seu sistema seletivo e excludente de ingresso, era uma realidade inalcançável, dado o longo período fora da sala de aula. A universidade privada se tornaria alternativa se não fosse tão cara. Daí que o programa foi providencial. Fiz exame do ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio e fiquei com uma nota bastante razoável, muito acima da média nacional. Com este resultado me inscrevi no ProUni e fui agraciado com uma bolsa integral para fazer POR OPÇÃO o curso de Pedagogia. Agora já no quarto período, posso relatar que nos três primeiros e no decurso deste quarto período fui vitima de preconceito e bullyng. Me espanta que neste nível de ensino vejo acadêmicos que freqüentam a sala de aula para assinar a pauta ou responder a chamada. Pouco se importam com o conteúdo que está sendo discutido. Quando procuro me manifestar, participando da construção do conhecimento, me pedem ‘calar a boca’. É estranho perceber que não estão entendendo e ainda assim estão mais preocupados em responder a freqüência. Dia desses um professor de Prática e Pesquisa da Educação III pediu que duas colegas de turma deixassem a sala, pois com a conversação paralela, sem nenhuma vinculação com o assunto em pauta, atrapalhavam o entendimento da questão. Outra professora já teceu comentários sobre outras colegas que entram em sala, respondem a freqüência e saem, como se o conteúdo em pauta não lhes dissessem nada a respeito.

Naturalmente ainda faltam alguns períodos para a conclusão do curso. Não me decepcionei com a escolha, mas com a qualidade daquilo que está sendo ofertado. Não à toda, Saviani (1999) teceu comentários a respeito da Mcdonaldização da educação. A Universidade Estácio de Sá leva isto ao ‘pé da letra’ como diz o ditado popular. Algumas das suas unidades estão instaladas em shoppings, dividindo espaço com lojas de roupas, calçados, lanchonetes e choperias. O argumento é que o espaço é apropriado para a convivência. Ora, não é a Universidade, por si só, um espaço apropriado para a convivência? E este espaço de convivência não acaba por desviar os alunos de seus objetivos? Bem, isso é um assunto a ser pesquisado por essa geração que está se formando nos dias atuais, mas que exige uma resposta para melhor entendimento dos destinos da educação brasileira.

VI – Temas para pesquisa educacional
Depois de discorrer sobre minha vida na escola, destacando apenas aquilo que a memória não me traiu, quero apresentar cinco temas implícitos no texto e que serviriam perfeitamente como tema de pesquisa educacional. O primeiro deles eu o apresento no primeiro parágrafo. Trata-se dos novos recursos tecnológicos e a influência deles no aprendizado dessa nova geração multimedia. Que influência esses recursos têm sobre os alunos e como os professores atuam diante da necessidade de lidar com esses instrumentos? De que maneira esses recursos podem contribuir na construção do conhecimento?

Em seguida, eu falo sobre o bullying, pois fui vitimado por este fenômeno. “O termo bullying compreende todas as formas de atitudes agressivas, intencionais e repetidas que ocorrem sem motivação evidente, adotadas por um ou mais estudantes contra outro (s), causando dor e angústia, e executadas dentro de uma relação desigual de poder (Construir Notícias, 2008 : p.5)”. Esse desvio de comportamento dentro da escola, quando não há intervenção para a superação do problema, pode ocasionar um sinistro mais grave, como o ocorrido na cidade de Taiúva, no interior de São Paulo, no início de 2003 quando um ou mais alunos foram armados para a escola e atiravam em quem estivesse à sua frente. A violência neste caso é o instrumento de superação do poder que os subjugava (idem). E nos dias atuais, como são vistos os casos de bullying? Como os educadores se colocam diante de um caso de bullying na sala de aula?
Um terceiro tema que considero importante, embora pouca literatura se encontra a respeito e pouco se debate sobre este tema, é a relação de poder exercida na sala de aula. Alunos de uma escola em Austin, e que já foi motivo de uma investida minha para fazer um trabalho para a disciplina de Políticas Públicas, mostravam certo temor na sala de aula. O medo do professor e da direção da escola atua de modo negativo sobre os alunos o que colabora para um desempenho pífio na construção do saber.

O quarto tema é algo que considero bastante discutido, mas que exige uma permanente discussão com o objetivo de superar esta questão. Trata-se do abandono da escola. A meu ver, é importante conhecer a fase mais aguda na criança, aquela que o leva a pensar em deixar a escola e procurar entender o motivo desestimulante para o estudo. Aqui eu destaco a importância da subjetividade, tratando ser a pesquisa qualitativa a mais apropriada para o fim desejado, pois não se trata de conhecer números de meninos ou meninas que abandonam a escola, mas de conhecer em que período na vida de uma criança isso ocorre, bem como os motivos pessoais.
Por fim, quero destacar um tema muito pertinente. Aqui quero resgatar o que disse Paulo Freire (2005) sobre estética. No terceiro período da faculdade de Pedagogia, escrevi um artigo sobre a Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire e destaquei a importância de uma escola decente para que os alunos sintam desejo de voltar no dia seguinte. Neste artigo escrevi que “ensinar exige ‘estética e ética. Decência e boniteza de mãos dadas (Freire, 2005)’. A escola precisa ser um espaço onde o educando sinta o desejo de voltar logo quando vai para casa. Deve ser um espaço de comparações, de intervenções, escolhas, de decisão. Isso é o exercício da ética, do respeito ao outro. Lugar onde correr riscos, aceitar criticamente o novo e rejeitar toda e qualquer manifestação de discriminação, reconhecendo e conhecendo as diversas identidades culturais (Santos, 2008)”. Então, um tema que considero interessante a ser tratado é sobre as condições das instituições escolares, ou seja, como estas se apresentam para os alunos.

Dos temas que apresentei destaco dois que mais me inquietam: os novos recursos tecnológicos e sua utilização na construção do conhecimento. Este tema considero importante porque há que se considerar que estamos vivendo uma era onde o conhecimento é a principal commodity para um mundo globalizado, para uma sociedade planetária. As transformações sociais ocorridas concomitantes com o desenvolvimento tecnológico exigem uma atualização da práxis educativa, por uma questão de sobrevivência. O mundo não é mais o mesmo;

  • O mundo que hoje surge constitui ao mesmo tempo um desafio ao mundo da educação, e uma oportunidade. É um desafio, porque o universo de conhecimentos está sendo revolucionado tão profundamente, que ninguém vai sequer perguntar à educação se ela quer se atualizar. A mudança é hoje uma questão de sobrevivência, e a contestação não virá de “autoridades”, e sim do crescente e insustentável “saco cheio” dos alunos, que diariamente comparam os excelentes filmes e reportagens científicos que surgem na televisão e nos jornais, com as mofadas apostilas e repetitivas lições da escola (Dowbor, 2001).

Ora, se o mundo está em constante mudanças, a prática pedagógica não pode ser a mesma dos tempos em que educação se resumia à sala de aula. Novas práticas precisam ser adotadas no sentido de responder as expectativas de todos e todas e de cada um em particular. Quando realizei uma palestra na Escola Estadual São Cristóvão, em Queimados/RJ, fiquei escandalizado ao ver que 6 computadores estavam empacotados na sala da direção sem utilidade alguma. O professor que me levou à escola ficou entusiasmado com os recursos que utilizei para ministrar a palestra sobre Síndrome de Asperger. Ali percebi o quanto esses professores precisam de atualização, pois estão distantes da realidade dos alunos. E o que é pior. Os recursos estavam lá, mas não eram utilizados. Além disso, é preciso dar uma resposta sobre o quanto estes recursos influenciam no aprendizado dos alunos e alunas, daí que considero este tema importante para uma pesquisa mais amiúde.

O segundo tema que destaco se refere às condições do ambiente escolar, ou seja, como as instituições se apresentam para os alunos e o quanto isso interfere, para o bem ou para o mau, no aprendizado dos alunos e alunas. Esta inquietação me ocorreu quando realizei uma palestra no CIEP Gilson Amado, em Engenheiro Pedreira, na cidade de Japeri/RJ. A escola realizava um evento de Culminância de Geografia e fui convidado a fazer uma palestra sobre a cidade de Japeri. Durante a palestra, mostrei em imagens duas cidades representadas por dois bairros específicos. A cidade de Japeri, através do bairro Engenheiro Pedreira e a Cidade de Curitiba, representada pelo Centro de Curitiba. Quando interrogados sobre qual cidade eles gostariam de viver, a totalidade apontou Curitiba. Duas outras imagens foram mostradas. De uma escola pública da Zona Norte e outra da Zona Oeste, ambas no Rio de Janeiro. Quando interrogados sobre qual delas gostariam de estudar, a totalidade dos alunos apontou para a escola que se mostrava melhor cuidada. Instigados a dizer o motivo, falaram da auto-estima, de orgulho e prazer de estar lá. Desde então me ocorre esta inquietação: será que as condições escolares não desestimulam o alunado voltar para a escola?

VII - Conclusão
Neste texto eu comecei resgatando outro anteriormente escrito por mim para mostrar que esta ‘garotada’ nova que ingressa na escola nos dias atuais nasceu em ‘berço multimedia’. Essa cultura que emerge das novas tecnologias são levadas para a escola, por isso destaquei sendo este um tema de relevância para uma pesquisa educacional. Em seguida começo a dissertar sobre minha trajetória escolar. Muitas coisas ficaram sem ser citadas, pois a memória não me permitiu um resgate com fidelidade da ocorrência dos fatos. Mas algumas coisas no histórico de vida de cada um de nós marcam tão profundamente que jamais são esquecidas. Foi o caso de ter que freqüentar a escola com os pés descalços e das zombarias que tive que suportar. Foi também o caso da professora que me castigava porque eu não fazia as lições, mas ficava desenhando ao invés de fazer o dever, bem como as corridas para fugir dos inspetores de disciplina que saiam em busca dos ‘gazeteiros’.

Mostrei neste texto que fora da escola também se aprende. Assim, a escola não pode fingir que os alunos e alunas não trazem consigo algum saber que são constituídos na prática comunitária. Saberes que Paulo Freire disse ser necessário aproveitá-los em benefício da construção do conhecimento. Mostrei também que se (estes saberes) forem ignorados pela escola pode ocasionar desestímulo levando o aluno/a a abandonar os estudos. Relato que a necessidade de me colocar devidamente no mercado de trabalho me fez retomar os estudos e que, felizmente, e por conta de um programa social do governo federal, chego à universidade para fazer um curso de Pedagogia, repito, por opção. Em cada etapa escolar procuro resgatar alguns fatos que marcaram essa etapa de minha vida e concluo destacando aquilo que considero importante como tema de pesquisa educacional.

VIII – Bibliografia
Althusser, Louis: Aparelhos Ideológicos de Estado: nota sobre os aparelhos ideológicos de Estado (AIE). Tradução de Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro: Rio de Janeiro : Edições Graal, 1985, 2ª edição.

Construir Notícias. O Fenômeno Bullying nas Relações Interpessoais. Revista Construir Notícias, n° 40, ano 07, maio/junho de 2008.

Dowbor, Ladislau. Tecnologias do conhecimento: os desafios da educação. Disponível em http://br.monografias.com/trabalhos903/tecnologias-conhecimento-educacao/tecnologias-conhecimento-educacao.shtml

Galbraith, John Kenneth. Anatomia do Poder. 4ª ed. (Coleção novos umbrais) Tradução de Hilário Torloni. São Paulo: Pioneira, 1999

FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia [saberes necessários à prática do educando] Rio de Janeiro. DP&A, 2005.

Jobs, Steve. Você tem que encontrar o que você ama. Disponível em
http://vocesa.abril.com.br/evolucao/aberto/ar_80039.shtml acessado em 27 de agosto 2008: 11:00h.

Neves, Lúcia Maria Wanderley. Educação e Política no Brasil de Hoje. São Paulo : Cortez, 1994 (Coleção questões da nossa época v. 36)

Penin, Sonia T. Souza; Vieira, Sofia Lerche. In Davis, Claudia (et. al.). Gestão da Escola: desafios a enfrentar. Vieira, Sofia Lerche (org.) Rio de Janeiro: DP&A, 2002.

Sexta-feira, 10 de Outubro de 2008

Comunicação e Informação: jornalista diplomado tem que ser diferente
Por Rildo Ferreira


I - RESUMO

A partir de um e-mail recebido do Portal Brasileiro de Filosofia, que critica a declaração do ministro Fernando Haddad sobre discutir diretrizes curriculares dos cursos de Comunicação Social, em especial o de jornalismo, e a possibilidade de criar cursos de especialização em jornalismo para que formados em outras áreas também possam exercer a profissão, e-mail que foi encaminhado para uma estudante de jornalismo e que provocou um debate interessante sobre a importância do diploma para o exercício da profissão de jornalismo. Para aprofundar o debate, fomos à origem do imbróglio: a reportagem com parte da declaração do ministro. Analisando a declaração concluí que a interpretação constante no e-mail tem um cunho ideológico e criticista. Aprofundo minha investigação para reforçar ou refutar meu conceito filosófico sobre o que vem a ser jornalismo e da necessidade do diploma para a prática da profissão dentro do contexto da sociedade do conhecimento e dos modernos recursos tecnológicos. Uma indagação surge dentro desta busca: o que é isto, o jornalismo? Esta inquietação reforça a idéia de que jornalismo tem a ver com tomada de posição em favor das forças hegemônicas ou por romper com elas. Tem a ver com transformação ou a manutenção do atual estado de coisas dentro das relações de forças, o que exige cientificidade específica. Eis o que diferencia o jornalista diplomado pela academia dos outros profissionais que praticam jornalismo.

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Palavras Chave: jornalismo, comunicação e informação, diploma, sociedade.


II - Introdução

As crianças travessas, daquelas bem bagunceiras, são exímias comunicadoras. E elas fazem comunicação de uma forma bastante ideológica, pois se trata de uma escolha entre a verdade que resulta no castigo, ou no escamotear da verdade para fugir do castigo. Ao seu jeito, ainda na mais tenra idade, uma criança consegue narrar com requintes de detalhe sobre um fato acontecido e, comunicando-se desta forma produz uma informação verossímil.

As pessoas no dia-a-dia praticam a comunicação e a informação muito naturalmente. Tanto assim que, diante de um sinistro que presenciam, saem do local onde aconteceu o sinistro comunicando e informando detalhadamente o ocorrido. Posso sugerir que esta é uma forma primitiva, mas muito original de praticar jornalismo ainda que sua informação não seja comunicada através de jornal, rádio, televisão ou internet, pois, a partir de um indivíduo, muitos outros se orientam por meio dela. Na forma primitiva, este processo se ramifica e cada um que ouviu tenta reproduzir com fidelidade a informação recebida. Quem pode calar a boca das pessoas a ponto de impedi-las de praticar este tipo de jornalismo? Mesmo no período da repressão, onde a censura era uma prática comum dos órgãos repressivos, só se calavam as pessoas que queriam comunicar e informar encarcerando-as ou eliminando-as definitivamente.

Ora, nos dias contemporâneos, tempo em que se vive a sociedade do conhecimento, e desde o início da revolução tecnológica, os processos de comunicação e informação ficaram naturalmente mais democráticos. Se cada um, e todos e todas podem praticar jornalismo sem ser jornalista formado/a na academia, para que serve o diploma universitário de jornalismo? Esta questão abre um debate acerca do papel do jornalismo e da práxis jornalística, apontando para uma relação dialética com vistas a uma intervenção nas questões sociais.

Este texto se propõe a dialogar sobre a necessidade do diploma de jornalista para a prática do jornalismo. Eu me debrucei sobre a questão a partir de um comentário que recebi do Portal Brasileiro de Filosofia, em nome de Paulo Ghiraldelli Júnior, que se denomina filósofo de São Paulo. Nele Ghiraldelli comenta uma manifestação do ministro da educação Fernando Haddad que teria dito no dia 18 de setembro de 2008, numa entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) que “criará uma comissão para discutir as diretrizes curriculares dos cursos de comunicação social, em especial o de jornalismo” (Cieglinski, 2008: Agência Brasil).

Antes de seguir adiante na questão, preciso informar aos meus leitores que não sou jornalista, não estudo jornalismo e não tenho ainda o curso superior. Na verdade, sou estudante de Pedagogia num curso noturno graças a uma bolsa do ProUni, um programa do governo federal que oferece bolsas de estudos no ensino superior para quem estudou o ensino médio em escola pública ou foi bolsista em escola particular, programa que Ghiraldelli usa para descerrar seu preconceito e sua posição ideológica de manutenção da sociedade desigual quando afirma “... como em princípio quem faz um curso superior sabe escrever (eu disse "em princípio", pois não posso dizer "efetivamente", dado o Prouni e outras facilitações brasileiras arrumadas pelo PT e outros arautos do populismo)...” como sendo todos nós bolsistas do ProUni incapazes e não aptos para ingressar no curso superior.

Este texto começa por analisar a entrevista que o ministro concedeu à Empresa Brasil de Comunicação (EBC) a partir da reportagem de Amanda Cieglisnki. Em seguida, vamos analisar outras opiniões acerca do tema, abordando ao mesmo tempo o significado de jornalismo como espaço público e como processo, e também avaliar como o jornalismo está sendo praticado nas grandes mídias abrindo uma discussão sobre o papel social de quem pratica jornalismo enquanto profissão.

Eu vou concluir expressando minha posição sobre este assunto. Não posso eximir-me desta condição considerando que foi exatamente isto que me trouxe a esta dissertativa. Não espero elogios, ao contrário, quero provocar um debate acerca da práxis jornalística com o intuito claro de influenciar na posição dos futuros jornalistas que farão comunicação e informação para uma geração que emerge em meio aos instrumentos tecnológicos bastante interativos, cuja capacidade de fruição e reflexão do conteúdo midiático está muito além do nosso conhecimento. Se ao final do debate surgir questionamentos e inquietações acerca do que é o jornalismo, fazendo com que todos e todas que se interessam pelo tema expressem suas opiniões de maneira a esclarecer o assunto, aí sim teremos alcançado o objetivo fim.

III - O que provocou esse debate

Como estudante do curso de Pedagogia (como já o disse, graças ao ProUni, para desespero do Ghiraldelli), fiz uma disciplina denominada Filosofia da Educação. Neste período tive contato com a literatura de autoria de Paulo Ghiraldelli Júnior. Certo dia, pesquisando sobre o Programa de Desenvolvimento da Educação do governo federal, encontrei um artigo publicado no jornal Estado de São Paulo assinado por Ghiraldelli. Neste artigo ele faz uma dura crítica ao PDE. Com uma posição diferente dele, fiz uma crítica à crítica dele e publiquei no meu blog (acessível em pedagogosdofuturo.blogspot.com/2007/12/o-mec-no-pra-de-errar-por-rildo.html#links). Como um sujeito democrático e buscando ser honesto, enviei um e-mail ao Ghiraldelli lhe comunicando sobre o artigo. Eis que o filósofo de São Paulo, como gosta de se denominar, me responde com ofensas. Posso garantir que burro foi a única publicável. Não me contive e repliquei. Novamente, novos insultos, mas desta vez com um convite para participar do grupo do Portal Brasileiro de Filosofia. Eu aceitei!

Como membro do grupo, recebo vários e-mails com os mais variados assuntos. Maioria deles eu os ignoro, pois nada dizem de importante. Mas recebi um que me chamou a atenção pelo seu título jornalista sem diploma, e pela discriminação explícita no seu conteúdo. Vale a pena reproduzir o parágrafo para uma apreciação de todos e todas. Disse ele:


Na prática o que Fernando Haddad pensa sobre o jornalismo pode ser mais ou menos isso: ser jornalista é saber escrever e, então, como em princípio quem faz um curso superior sabe escrever (eu disse "em princípio", pois não posso dizer "efetivamente", dado o Prouni e outras facilitações brasileiras arrumadas pelo PT e outros arautos do populismo), para que devemos ter qualquer "reserva de mercado" para tal profissão? (Ghiraldelli, 2008: e-mail de grupo)


O estranho é que no site do Portal Brasileiro de Filosofia (PBF) Ghiraldelli não faz uso do termo discriminatório quando reescreve o artigo rearranjando com o título O Jornalista Sem Escola de Jornalismo (Ghiraldelli, 2008: internet). Por que será? Talvez ele não queira mostrar sua verdadeira face para os milhares de universitários bolsistas do ProUni que em determinado momento farão uso de uma ou mais obras de sua autoria. Mas isto não vem ao caso aqui. Então vamos voltar ao assunto e dizer que este e-mail (o que recebi do PBF) foi reenviado para uma estudante de jornalismo que já praticava jornalismo sem passar pela academia. Daí o debate tomou um determinado corpo aguçando minha curiosidade para conhecer mais sobre a matéria.

Então adotei a seguinte metodologia: primeiro é preciso conhecer o teor das declarações do ministro. Não foi encontrado nenhum registro integral da entrevista dada pelo ministro Haddad à Empresa Brasil de Comunicações. A matéria startante deste imbróglio é de autoria de Cieglinski da Agência Brasil, e que vou comentar no tópico seguinte. Depois fui procurar artigos, teses e literatura pertinentes ao jornalismo, não só para entendê-lo enquanto ciência, mas para compreender sua práxis e sua função científica. Vamos adiante ao assunto passando agora à matéria da jornalista Cieglinski e entender o que de fato disse o ministro Haddad.

IV – O ministro e a profissão do jornalista

Cieglinski, repórter da Agência Brasil, em matéria disponível na internet escreve: “... O ministro da Educação, Fernando Haddad, disse hoje (18), em entrevista à Empresa Brasil de Comunicação (EBC), que criará uma comissão para discutir as diretrizes curriculares dos cursos de comunicação social, em especial o de jornalismo... Entre os possíveis assuntos que serão debatidos pela comissão está a possibilidade de criar cursos de especialização em jornalismo para que formados em outras áreas também possam exercer a profissão”.
Ministro da Educação, Fernando Haddad – foto extraída da matéria da Agência Brasil

Nas palavras do ministro na entrevista ele propõe uma discussão para ver quais diretrizes e quais competências são necessárias para que um profissional não jornalista possa exercer jornalismo. Nesta entrevista, não há uma posição do ministro em ser favor ou contra o diploma para o exercício da profissão. O que foi dito, é preciso reforçar, é que a posição do ministro é “... que é um bom momento para discutir essas diretrizes e verificar inclusive quais são as competências que precisam ser adquiridas por um profissional de outra área para que ele possa exercer a profissão de jornalista” (Ceglinski, 2008: Agência Brasil).

Ivana Bentes, doutora em Comunicação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, diretora da Escola de Comunicação, concede entrevista para a Revista on-line do Instituto Humanitas Unisinos onde declara:
... surge uma argumentação contrária, afirmando que isso é fazer o jogo das empresas. Vejamos que as empresas já burlam o diploma de todas as formas, como os colunistas. Sempre peço aos meus alunos para analisarem qual é o maior salário das redações e o resultado é sempre o mesmo: os colunistas. Quantos deles são formados em jornalismo? Quase nenhum! Os cronistas, os editores, os colunistas, isto é, os cargos mais nobres da redação são ocupados, geralmente, por não jornalistas. E isso há décadas! Eu considero muito saudável o fato de que sociólogos, antropólogos, filósofos, economistas e artistas escrevam nos jornais. O jornalista não tem mais aquele perfil fechado. Se a exigência do diploma acabasse amanhã, os cursos de comunicação continuariam iguais. Os cursos que fazem a diferença dentro da formação desse profissional continuam formando profissionais de qualidade. O que muda e o que acaba são os cursos que realmente vendiam apenas o diploma.

Vamos analisar esta última frase do ministro Haddad - quando ele diz “... verificar inclusive quais são as competências que precisam ser adquiridas por um profissional de outra área para que ele possa exercer a profissão de jornalista” e compará-la com a afirmação de Bentes. A doutora diz que há sociólogos, antropólogos, filósofos, economistas e artistas que escrevem para os jornais. Embora ela não seja contrária a participação deles, inclusive considerando-os saudáveis para a comunicação e a informação ela questiona: quantos deles são formados em jornalismo? E o que disse o ministro senão verificar quais as competências necessárias para que, com uma formação complementar, eles possam continuar fazendo o que já fazem sem serem jornalistas. Essa informação está no artigo de Ceglinski. Vejamos:
Para o ministro, o aprofundamento do debate pode implicar em melhoria da qualidade do exercício profissional. “A comissão discutirá isso, sem prazo determinado, para que o MEC tenha um posicionamento oficial sobre o assunto [obrigatoriedade do diploma para exercício da profissão]. Mas essa [a formação complementar] é uma possibilidade. Um médico, por exemplo, pode fazer uma pós em comunicação para cobrir os assuntos de saúde, ou um pedagogo para cobrir educação”, comparou ([grifos da autora] Ceglisnki, 2008: Agência Brasil).
Ora, a minha compreensão é a de que o ministro pensa que para que estes graduados não jornalistas possam continuar a praticar o jornalismo que praticam, precisarão de uma pós-graduação com disciplinas pertinentes ao jornalismo, nos moldes aplicados na educação, quando um psicólogo, antropólogo, biólogo, sociólogo deseja ser um educador, precisa fazer algumas disciplinas pertinentes para a licenciatura. Obviamente precisamos de mais elementos do pensamento do próprio ministro para ter um entendimento claro sobre o que ele pensa desse assunto, de qualquer maneira, este parágrafo mostra que o MEC ainda não tem uma posição formada e que esta comissão é que pode oferecer os subsídios necessários para uma posição oficial sobre o assunto.

Digamos que o Ghiraldelli esteja certo na sua interpretação e eu esteja errado na minha. Digamos, também, que a proposta do ministro seja esta, a de oportunizar que qualquer um que tenha curso superior possa exercer a profissão de jornalista sem que tenha cursado a academia com esta finalidade. Digamos que a compreensão comum é a de que isto é um erro e que não pode ser aceito de maneira nenhuma e que, para ser jornalista o sujeito tenha que passar pela academia com esta finalidade. Não temos, então, alguns questionamentos a serem respondidos? Vejamos: quem exerce a profissão de jornalista e não possui o diploma, o que será feito desse povo? E esses impressos independentes que são produzidos com característica de jornal, serão proibidos de circular? E os milhares de indivíduos que atuam nessa enormidade de rádios comunitárias espalhadas pelo país, trabalhadores que não possuem diploma de jornalista, o que será feito deles? Será possível impedir que uma pessoa publique uma matéria na internet, na sua revista eletrônica, no seu blog, no seu jornal eletrônico, na sua rádio virtual?

Eu acredito na possibilidade da democratização da comunicação e da informação. A Constituição Federal garantiu às brasileiras e brasileiros o direito de comunicação, de informação, de expressão cultural, independente de censura ou licença. Está expresso no seu Art. 5º. Nos seus respectivos incisos:
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
...
IV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato;
...
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença;
...
(Constituição Federal, 1988 [grifo meu])
Dada essa condição constitucional, vamos pensar agora numa característica desta sociedade e desta nova geração que nasce em meio aos revolucionários recursos tecnológicos. Vivemos a era do conhecimento, onde o capital principal é o intelectual, exigindo dos trabalhadores uma capacidade de tomar iniciativas, estar informado e atualizado, ser capaz de se comunicar com desenvoltura e de ser inovador. Esta sociedade é produto da chamada terceira revolução, a revolução tecnológica. Com o barateamento e a conseqüente popularização desses instrumentos, com muito pouco recurso financeiro qualquer pessoa pode produzir o seu próprio jornal (Kucinski, 2003: internet). E quem poderá impedir alguém de se comunicar sem correr o risco de censura e de violação dos direitos constitucionais do cidadão?

Os defensores do diploma para o exercício da profissão de jornalista deveriam estar preocupados com outra questão: a da razão filosófica de ser do jornalista. Esta razão é muito mais do que ter a garantia de emprego por ter um diploma na mão. Aliás, diploma não é garantia de absolutamente nada. Tem muito diplomado por aí concorrendo a um emprego público com salário de pouco mais de 600 reais por mês. E por quê? Porque não são competentes. Não adquiriram a competência necessária na academia para exercer a profissão escolhida. Então a gente precisa se debruçar sobre o que vem a ser jornalismo pra buscar a essência desta profissão. E pra quê buscar esta essência? Pra ser diferente e não ficar preocupado com os milhares de homens e mulheres que exercem a profissão sem diploma. Se estes que não possuem diploma ocupam o lugar de quem possui, alguma coisa está errada, e está errada por inabilidade, incompetência dos diplomados que não ocupam o seu espaço. E o que é interessante observar é que o corporativismo não tem conseguido impedir isso (Bentes, internet).

Cassiano Elek Machado, jornalista da Folha de São Paulo, escreveu um artigo em 2002 com o título “a universidade é só o começo” e traz no seu primeiro parágrafo uma interessante observação que desejo reproduzi-la a todos.
Na última década, a universidade viveu uma espécie de milagre da multiplicação dos diplomas. O número de graduados cresceu de 225 mil no final dos anos 80 para 325 mil no levantamento mais recente do Ministério da Educação, em 2000. A entrada no mercado de trabalho desse contingente, porém, não vem sendo propriamente triunfal como uma festa de formatura. Engenheiros e educadores, professores e administradores, escritores e sobretudo empresários, têm sussurrado uma frase nos ouvidos dessas centenas de milhares de novos graduados: "O diploma está nu" (Machado, 2002: internet).
Machado destaca no texto a expressão “o diploma está nu”. Por qual motivo? Notem que o autor diz que o mercado não absorveu o contingente de graduados na mesma proporção da formatura. E de lá (2002) aos dias atuais, quantos graduados mais foram lançados como oferta no mercado sem que este tivesse condições de absorvê-los? E o diploma foi garantia de emprego? A resposta é simples. Não. E o que é pior, é que os piores desse contingente passaram a disputar emprego de nível médio ou se colocando a disposição com salários aviltantes, o que passou a colocar em xeque o emprego e o salário dos melhores.

Nesse mesmo artigo ele cita o autodidata Evaldo Cabral de Mello para dizer "O importante é ter formação, que não é necessariamente universitária”. Ora, se recorrermos ao artigo da doutora Bentes (internet) perceberemos que as empresas de comunicação preferem aqueles que são formados e bem informados aos jornalistas diplomados que deixam a desejar quando avaliados empiricamente. Talvez por isso os alunos da doutora identifiquem melhores salários para aqueles que não possuem diploma de jornalista. Com efeito, senhoras e senhores; o problema da empregabilidade não está no diploma, mas na formação. Diploma e corporativismo não vão garantir emprego nos dias atuais (Pastore, 2000). Daí que eu insisto que o jornalista que passa pela academia precisa ser diferente. Ele possui a cientificidade pertinente para uma práxis diferenciada. Uma práxis que pode interferir no que está posto na sociedade, na comunicabilidade. No meu entender, jornalista tem uma função social e seu trabalho precisa estar atento a isto, ainda que as empresas de comunicação operem contra uma mudança substancial na sociedade preservando o status quo da classe hegemônica, é papel do jornalista estar lá investigando a causalidade do fato, reportando com verossimilidade provocando uma transformação no contexto social.

V - O que é isto, o jornalismo?

Para levar adiante este diálogo vamos precisar esclarecer o vem a ser jornalismo (estou falando do meu ponto de vista sendo factível aos leitores uma interpretação diferenciada). E para esclarecer o que penso do assunto, vou recorrer a outro doutor em comunicação social. Trata-se de Carlos Chaparro, que a meu ver, tem uma definição bastante esclarecedora sobre o que é jornalismo. Um vídeo disponível no You Tube, acessível a qualquer um que queira investigar, foi transcrito por mim, e aí me permiti corrigir para a escrita aquilo que o doutor Chaparro diz oralmente, para ilustrar este diálogo. Disse Chaparro:
O jornalismo não é o jornal. O que se joga no lixo é o jornal, mas o jornalismo tem a ver com a vida. Porquê? Porque aquilo que é noticia só é noticia porque tem algum potencial de transformar a realidade. Então o jornalismo não lida com o efêmero. Jornalismo lida com a transformação. As noticias de amanhã elas refletirão os efeitos das notícias de hoje. Portanto o jornalismo está enraizado como ferramenta essencial no contexto da vida, no contexto da realidade, no contexto da construção do presente (Chaparro, transcrição de vídeo, disponível na internet).
Transformar a realidade é, a meu ver, interferir nela. Como isso pode ocorrer? Ora, vamos recordar o jornalista Tim Lopes, barbaramente assassinado no topo da Favela da Grota, no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O que fazia Tim Lopes na favela? Uma reportagem é claro, mas não uma reportagem que apenas narrasse o fato, mas uma que mostrasse a causalidade e a conseqüência do fato. Tim Lopes tentava mostrar que onde o Estado não atua, o crime se instala, se organiza, e toma conta de tudo. Ali onde o Estado está ausente, impera a Lei do crime. Meninos de 10, 12 anos andam fortemente armado com escopeta, fuzil, pistola; entorpecentes são comercializados como se fossem guloseimas infantis; quem comete um ato que viola a lei do crime, ali mesmo é julgado e, se condenado, fuzilado como sentença última.

Ao tentar interferir na realidade o jornalista pratica o jornalismo na sua essência, ou seja, ele procura com a narração do fato conhecer a causalidade para produzir um efeito transformador da realidade. Para esclarecer melhor o que estou dizendo vamos analisar as matérias publicadas nos jornais O DIA on-line e Zero Hora on-line em 01/10/2008:
Acidente entre carro e motocicleta deixa um ferido em Botafogo
Bartolomeu Brito
Rio - Um Celta branco, placa LQH 1849, colidiu com uma motocicleta Zuzuki preta, placa MJR 0007, na Rua general Polidoro, em frente ao nº 15, em Botafogo.
O motociclista, Caio de Melo, 47 anos, caiu da moto e sofreu ferimentos leves. Foi socorrido por uma ambulância do Corpo de Bombeiros e levado para o Hospital Miguel Couto (O Dia on-line, 01/10/2008).

Acidente em Farroupilha deixa quatro pessoas gravemente feridas

Caminhão e Uno colidiram próximo ao Posto Cavalleri, no km 109 da RSC-453
Um acidente entre um caminhão furgão e um Uno, às 9h50min, próximo ao Posto Cavalleri, no km 109 da RSC-453, em Farroupilha, deixou os quatro ocupantes do carro gravemente feridos. O motorista do caminhão saiu ileso, e seu ajudante teve escoriações leves. As vítimas foram socorridas pelo Corpo de Bombeiros e encaminhadas ao Hospital São Carlos, no município.
O caminhão, da empresa Divibom, distribuidora de sorvetes Kibon, seguia no sentido Farroupilha-Garibaldi. O Uno da empresa Acquasul, de Nova Prata, vinha no (sic) mão oposta (Zero Hora on-line, 01/10/08).
Com efeito! O que os jornalistas produziram com as respectivas matérias? Onde estão as causas das tragédias? Quais objetivos os jornalistas tinham quando pensaram em produzir tais artigos? Se nada tem de objetivo, a matéria não passa de uma ação de um comunicólogo. Jornalismo é mais que isso. Jornalismo procura conhecer a causa para transformar a realidade. Vejamos: se nas mesmas matérias os jornalistas se preocupassem em verificar quais foram os motivos que provocaram os acidentes ouvindo outros atores como os que vivem próximo dos locais dos acidentes, outros motoristas que trafegam diariamente pelas respectivas estradas, procurassem conhecer as condições da sinalização, do asfalto, da visibilidade etc., procurando mostrar além dos feridos nos acidentes e dos nomes deles (aliás, a matéria do jornal Zero Hora sequer identifica os feridos), não estariam os jornalistas provocando uma inquietação no Poder Público para tomar as medidas cabíveis para evitar novos acidentes? É disto que estamos falando. Jornalista que narra fatos não é jornalista. É comunicólogo. Para isto ele não precisa do diploma da academia. Para isto qualquer um que fale com desenvoltura, que saiba ler corretamente e tenha boa locução ou saiba escrever corretamente serve.

Voltemos a dialogar com o doutor Chaparro. No mesmo vídeo (repito: transcrevi com algumas correções) ele se refere ao jornalismo como um processo capaz de transformações sociais. Vale a pena transcrever o diálogo aqui para melhor compreensão.
O jornalismo é uma linguagem com características muito particulares, com uma vocação muito particular para levar à sociedade relatos, comentários, que possam ser acreditados. O jornalismo é um processo, porque na medida em que as notícias de hoje projeta os acontecimentos que amanhã serão noticiados, projetam, isto é, motivos, acontecimentos que amanhã serão noticiados, então há aí uma dinâmica que tem a ver com os próprios processos sociais. E o jornalismo cumpre um papel muito importante dentro dos processos sociais. E o próprio, nos seus mecanismos, na sua lógica, ele se constitui um processo (Chaparro, internet).
Ele, o jornalismo, cumpre um papel importante dentro dos processos sociais porque ele próprio é um processo contributivo nas transformações sociais. O que será notícia amanhã é um reflexo daquilo que será noticiado hoje, ou seja, se a notícia de hoje não mobilizou, não impactou, não inquietou, não provocou mudanças, amanhã ela será a reprise daquilo que já foi noticiado. É uma matéria requentada: mudam-se as palavras, mas o conteúdo é o mesmo. Já quando ocorre o contrário, quando mobiliza, inquieta e provoca mudanças, a notícia amanhã será outra, talvez ainda das mudanças que ocorrem ao mesmo tempo ou da própria mudança já concreta.

A estudante de jornalismo citada no início deste texto, como já me referi, praticou jornalismo por muito tempo sem ser jornalista formada na academia (quero exaltar sua grande capacidade produtiva e afirmar que sua formação se deu na prática). Fui testemunha de que muitas reportagens produzidas por ela foram transcritas nos jornais da região sem que o/a jornalista responsável pela publicação se desse ao trabalho de alguns telefonemas, algumas horas investigando, procurando conhecer o “outro lado da moeda”. Não que a matéria não fosse digna de crédito, mas é imprescindível que o jornalista não tenha apenas uma versão. Não há aqui nenhuma conjetura da teoria da imparcialidade. Muito já se tem falado que não há imparcialidade em jornalismo e eu comungo desta opinião, mas há o que é de fato de diferente num jornalista. Investigar é fundamental para a credibilidade do que ele publica, ou noticia no rádio ou na televisão. Para fazer essa garimpagem de notícias que lhes chegam por e-mail sem se dar ao trabalho da verificação, não é necessário o diploma da academia. É aqui que eu considero que, se é para interpretar um texto bem redigido, com as preocupações pertinentes da redação, a meu ver, ficaria melhor o posto para um lingüista ou um professor de língua portuguesa.

V.i. – Uma abordagem esportiva

Ora, certamente alguns estão se perguntando sobre no que um jornalista esportivo pode intervir, por exemplo. Estamos tão acostumados a ouvir a fatídica pergunta “qual a sua expectativa para este jogo?” que não nos damos conta do que acontece na margem periférica de uma partida de futebol. Vamos tomar como exemplo um jogo envolvendo duas equipes rivais de um Estado, poderia ser São Paulo e Corínthians; Atlético Mineiro e Cruzeiro; Grêmio e Internacional; mas vou ficar aqui no Rio (de onde escrevo este texto) e citar Vasco e Flamengo. Quantos ingressos falsificados são vendidos por cambistas nas proximidades das bilheterias do Maracanã? Porque as filas continuam quilométricas nas bilheterias com as tradicionais confusões, empurra-empurra etc.? Porque o estádio não tem uma praça de alimentação adequada para os visitantes? Você consegue se sentar no vaso sanitário dos banheiros do Estádio? Vejam quantas coisas conseguimos identificar neste pequeno espaço de tempo e espaço das quais o jornalista pode ter como objetivo influir. Mas o jornalista mal-formado, aquele que se preocupou apenas com o diploma da academia, está preocupado somente com a partida como fim em si mesma.

A notícia produzida com cientificidade por um jornalista capacitado tem um objetivo maior que é o de transformar uma realidade. Ela precisa ser inquietante, impactante, deixar alguém preocupado com o movimento que se dá a partir dela. Não deve ser sensacionalista, aquela notícia que fala de uma tragédia como se estivesse num grande teatro e que tudo isso é um show a ser noticiado. Quando se noticia uma tragédia, a notícia deve possuir caráter revelador, questionador, mobilizador. Quando noticiaram a morte do jornalista Tim Lopes provocou uma mobilização social em defesa do estado de direito; mobilização pela paz e pela vida. A notícia provocou uma mobilização que deixou o Estado inquieto. Tanto assim que o mentor intelectual da barbárie não demorou a ser preso. Quem, além do jornalista que passa pela academia, será capaz de fazer do jornalismo uma ciência social transformadora?

VI - Por que é impossível impedir a prática do jornalismo sem diploma?

Este tópico tem uma pergunta como título. A resposta é uma subjetividade deste autor. Para respondê-la precisamos conhecer melhor a sociedade em que vivemos. Como já citado acima, a Constituição Brasileira democratizou o fazer comunicação e informação, a cultura e o saber. Isso é um direito subjetivo e inalienável. Kucinski (internet) se reporta aos processos tecnológicos como um avanço na democratização da informação e da comunicação. Disse ele:
Quanto à outra revolução tecnológica, a da comunicação, a considero, certamente, libertária. Chamo a atenção para alguns aspectos dessa revolução que reforçam essa minha tese. O primeiro é o barateamento dos processos, dos produtos, dos equipamentos. Hoje com 3.000 ou 4.000 reais uma pessoa produz um jornal sozinha; libertou-se do capital. Ao contrário do que se possa imaginar, esse barateamento nos devolveu a autonomia intelectual e o domínio relativo da produção intelectual. Nesse sentido, a atual revolução tecnológica vai na direção oposta da Revolução Industrial do século XVIII, que criou a máquina, destruindo o artesão e fazendo cada trabalhador depender de um capitalista possuidor dos bens de produção (Kucinski, 2003: disponível na internet).
Isso significa dizer que se antes a comunicação e a informação era privilégio de grupos agora já não é mais. É o mesmo que dizer que todos os que têm acesso à internet pode ser comunicado e comunicar, informado e informar, e isto sem ser necessário censura ou licença, preceito garantido na Constituição Federal desde 1988. Com efeito, qualquer pessoa que domina os modernos recursos tecnológicos pode praticar comunicação e informação mesmo não sendo jornalista formado na academia, como afirma Moran (2006):
A internet está explodindo como a mídia mais promissora desde a implantação da televisão. É a mídia mais aberta, descentralizada e, por isso mesmo, mais ameaçadora para os grupos políticos e econômicos hegemônicos. Aumenta o número de pessoas ou grupos que criam, na internet, suas próprias revistas, emissoras de rádio ou de televisão, sem pedir licença ao Estado ou estar vinculados a setores econômicos tradicionais. Cada um pode dizer nela o que quer, conversar com quem desejar, oferecer os serviços que considerar convenientes. Como resultado, começamos a assistir as tentativas de controlá-la de forma clara ou sutil (p. 9).
O jornalista que passa pela academia tem uma função social, me desculpem pela insistência na abordagem. Esta é a diferença marcante entre aquele que faz comunicação e informação com diploma para o que faz a mesma coisa, mas não possui o diploma. Isso quer dizer que o jornalista com academia tem uma tarefa de intervir no que está colocado na sociedade. Intervir significa tomar uma posição, ser ideológico. Não existe comunicação e informação imparcial. Então, fazer comunicação e informação qualquer um faz, e para isto não é necessário o diploma da academia, mas fazer comunicação e informação com o intuito de mudar as coisas, de promoção da verdade, com vistas a reduzir as desigualdades e as injustiças é que faz a diferença no comunicar e no informar. Esta intervenção, no entanto, exige uma cientificidade que não é dada ao que faz pelo ativismo, fazer por protesto, para usufruir do seu direito de se comunicar. Esta cientificidade é construída e apreendida na academia e é aqui o cerne da questão, o diferencial. Cientificidade aferida pelo diploma.

Jornalista que assenta a bunda numa cadeira almofadada e liga o computador, entra na internet, abre o e-mail e fica filtrando informações produzidas por assessores de imprensa sem investigá-la, é parte dos milhares de homens e mulheres que fazem comunicação e informação sem a cientificidade construída na academia. Para estes não é necessário o diploma da academia. Aliás, minha ousadia diz que se o papel dos veículos de comunicação é garimpar informações produzidas por assessores de imprensa para publicá-las, ou editá-las e reproduzi-las; garimpagem que privilegia um texto bem escrito, dentro das formalidades exigidas pela editoria, talvez fosse melhor um professor de lingüística ou da Língua Portuguesa a fazer isso a um jornalista que pena pra burro pra dar conta de um texto enxuto, corretamente elaborado.

José Nêumanne Pinto prefaciando o livro de Serva (1997) traz uma preciosidade como exemplo. Diz ele: “um de meus mestres, talvez o melhor repórter que conheci, Mané Alexandrino Leite, do Diário de Borborema, de Campina Grande, era semi-analfabeto. Ler, ele até lia, mas escrever, nem pensar. O que lhe faltava em intimidade com o vernáculo, porém, lhe sobrava em faro para a notícia...” (pp. 12, 13).

Como já disse anteriormente há um questionamento para saber o que será feito dessa turma que já pratica jornalismo sem o diploma de jornalista. Jornalistas formados empiricamente, que não passaram pela academia, mas que exercem com profundo conhecimento a práxis jornalística. Este exemplo que Nêumanne cita no prefácio do livro de Serva é importante porque ainda há muitos que trabalham no ramo sem possuir o diploma. Falo especificamente dos jornalistas que procuram a notícia, não dos colunistas que são graduados em outras áreas e que escrevem para os jornais e revistas, ou comunicam nas rádios e nas tevês. Estes a doutora Bentes já fala com muita propriedade em sua entrevista, já citada anteriormente.

Naturalmente, dirão alguns, que se uma Lei determinar que para exercer a profissão é obrigatório possuir diploma, as empresas serão obrigadas a contratar somente os jornalistas formados, respeitando aqueles que já têm o jornalismo como profissão mesmo sem possuir o diploma. Isso é verdade, entretanto, isso não será garantia de emprego pra ninguém só porque possui diploma. Não é à toa que os detentores dos meios procuram e valorizam os free lancers. Estes continuarão a existir e a vender suas matérias sem que tenha vínculo empregatício com as empresas de comunicação e informação. Além disso, esse corporativismo tende a supervalorizar o possuidor do diploma ainda que este não tenha adquirido na academia a competência necessária para a produção da notícia. E mais, muitos continuarão (eu digo continuarão porque isso é uma prática muito comum nos meios, principalmente nos jornais e revistas) a assinar por matérias produzidas pelos já conhecidos Assessores de Imprensa, muitos deles, se não a maioria, sem sequer ter passado pela academia. Isso vai na contramão da história desses tempos contemporâneos. A história diz que a academia deve capacitar o indivíduo para aprender a aprender e aprender a fazer. Muitos jornalistas formados estão muito preocupados com a empregabilidade, mas não sabem o que fazer com a formação que teve, ou seja, não sabe verdadeiramente para que serve a sua formação senão para lhe garantir um emprego numa empresa de comunicação e informação.

VII - Conclusão

Comecei este texto com uma reportagem da Agência Brasil sobre o ministro Fernando Haddad e sua declaração sobre criar uma comissão para verificar quais as competências são necessárias para que formados em outras áreas possam atuar enquanto jornalistas. Mostrei que a posição do ministro é defensiva, já que o governo não tem uma posição oficial. Esta será construída a partir do parecer desta comissão. Mostrei, também, que o ministro não se manifesta quanto a prática do jornalismo sem diploma e que a posição do filósofo Ghiraldelli Júnior é marcadamente ideológica e preconceituosa. Esta posição eu procurei estabelecer deixando claro que a minha interpretação não foi a mesma do Ghiraldelli e pode não ser a sua.

Em seguida, fiz um paralelo com a entrevista que a doutora Bentes concedeu ao Instituto Humanitas Unisinos, o que pela minha interpretação são complementares. Passo então a discursar sobre o que vem a ser jornalismo filosoficamente falando. Meu conceito eu deixo claro: jornalismo tem uma função social. Não é concebível fazer jornalismo para comunicar um fato simplesmente. Como disse o doutor Chaparro, jornalismo tem por característica transformar a realidade. Foi por isso que lembrei neste texto do jornalista Tim Lopes para lembrar que sua morte se deu em função do seu trabalho em tentar mudar uma realidade vivida nas favelas do Rio de Janeiro. Lopes tentava nos dizer que onde o Estado é ausente, o crime se aloja, se organiza e estabelece a sua lei, uma lei que é contrária a do estado de direito.

Ainda que os meios sejam instrumentos do capitalismo para a perpetuação da sociedade tal como ela se apresenta, cabe ao jornalista dar a sua contribuição para a transformação desta realidade. Como disse Serva (1997), “O rádio já surge dominado por forças que estão prontas a emitir quando ainda lhes falta público receptor”, assim como foi o jornal impresso, a televisão e agora a internet. Esta, no entanto, traz uma novidade que foi identificada por Kucinski (internet) como aquela que devolve ao produtor a autonomia da intelectualidade, democratiza e liberta. E aqui, por meio desse novo instrumento tecnológico está, talvez, aquilo que mais aterroriza os defensores do diploma para o exercício do jornalismo. A internet possibilita que a informação e a comunicação se dê em just time; sem as amarras de um proprietário que determina que tipo de conteúdo pode ser repassado à sociedade. Esse instrumento que alargou as possibilidades de fruição da informação e da comunicação do público; que colocou em xeque algumas verdades tidas como absolutas e que permite ao público uma leitura mais acurada acerca daquilo que lhe está sendo transmitido.

Ora, eu não sou contra o diploma, como venho tentando dizer em cada parágrafo. Eu sou contra o jornalista que possui o diploma e não sabe o que fazer com o saber adquirido na academia e que faz do diploma um passaporte para a empregabilidade; e ao mesmo tempo quero dizer que se o indivíduo é capacitado para a práxis jornalística, ainda que não possua o diploma, e se esta é a carreira que ele escolheu para garantir a sua sustentabilidade e a de sua família, ele não deve ser impedido disso. Ao contrário; se a empresa que contrata um indivíduo devidamente capacitado sem o diploma acadêmico, ela deve proporcionar a ele a possibilidade de passar pela academia para adquirir um saber científico e melhorar a qualidade do seu produto. Desse modo, se o sujeito tem faro para a notícia, como disse Nêumanne referindo-se ao seu mestre, ele adquire aquele saber que eu venho dizendo todo o tempo, um saber que transforma a realidade presente para a promoção da paz de todos e todas, de valorização da ética, da solidariedade, da justiça e de redução das desigualdades.

VIII - Bibliografia

Moran, José Manuel. Como utilizar a internet na educação in Construir Notícias. Nº 31, novembro /dezembro de 2006.

Agência Brasil:
www.agenciabrasil.gov.br/noticias/2008/09/18/materia.2008-09-18.8640267075/view

Ghiraldelli Jr. Paulo: Jornalismo - mais uma aprontação do garotão Fernando Haddad: disponível em
groups.google.com.br/group/portal-brasileiro-da-filosofia/browse_thread/thread/96ea75da8b9fb81c#: acessado em 18/9/2008, 21:30h.

Ghiraldelli Jr. Paulo. Jornalismo sem escola de jornalismo: disponível em portal.filosofia.pro.br/noticia/mec-e-jornalismo.html: acessado em 20/9/2008 às 23h.

Bentes. Ivana. Instituto Humanitas Unisinos. Disponível em www. unisinos.br/ihu/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=1274 acessado em 27/9/2008 às 22h.

Machado. Cassiano Elek. A universidade é só o começo: Jornal Folha de São Paulo: disponível em http://www1.folha.uol.com.br/folha/sinapse/ult1063u6.shtml acessado em 30/9/2008, às 15:30h.

O DIA on-line: Acidente entre carro e motocicleta deixa um ferido em Botafogo: disponível em odia.terra.com.br/rio/htm/acidente_entre_carro_e_motocicleta_deixa_um_ferido_em_botafogo_203173.asp. acessado em 01/10/2008 às 16 horas.

Zero Hora on-line: Acidente em Farroupilha deixa quatro pessoas gravemente feridas: disponível em
http://zerohora.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default.jsp?uf=1&local=1&section=Geral&newsID=a2214289.xml acessado em 01/10/2008

Serva, Leão Pinto. Babel: a mídia antes do dilúvio e nos últimos tempos. São Paulo: Mandarim, 1997.

Pastore, José. Empregabilidade: Disponível em www.josepastore.com.br/artigos/em/em_076.htm acessado em 03/10/08 às 20:04h.

Segunda-feira, 7 de Julho de 2008

Sobre Cotas nas Universidades
Por Rildo Ferreira [ferrera13@hotmail.com]


Para começar este diálogo vamos retomar Savianni (1999) e a teoria da curvatura da vara. O mestre diz que se temos uma vara com alguma curvatura, tênue ou aguda, e desejamos torná-la reta, devemos fazer uma diametralmente oposta curva na vara com a mesma intensidade e com determinado tempo. Assim podemos imaginar um gráfico com a contribuição da História da Educação e veremos a curva das classes em relação ao processo educacional. Ora, desde o Império, o sistema educacional foi criado para atender uma classe já privilegiada. Quando os primeiros portugueses aqui chegaram sentiram a necessidade de implantar uma escola para seus filhos, visto que mandá-los para a Europa, além de separar as famílias, tinha uma despesa muito grande. Assim, seria providencial a criação de escolas no Brasil.

Gráfico representando progresso em educação com base na teoria de Dermeval Savianni.

Com o surgimento dos burgos e o crescimento do comércio, viram que era necessário ensinar os trabalhadores no domínio de algumas habilidades para o exercício da função. Então mandaram para a escola aqueles trabalhadores que atuavam no comércio, e também seus filhos, com o objetivo limitado de aprender o suficiente para a realização de suas tarefas. Estava criada a escola dual caracterizada por Althusser (1992). Tinha uma escola que ensinava os ricos e os filhos destes, e uma escola que ensinava os trabalhadores. Mas, vejam, estamos falando de trabalhadores pobres brancos. Os negros ainda estavam no serviço braçal nas fazendas. Alguns poucos atuavam nos burgos e suas tarefas eram singularmente braçal. Ora, quando deram por fim com a escravidão (e deram? Ainda hoje 11/6 o jornal Extra do Rio de Janeiro publica que uma mulher era escrava da patroa!) disseram aos negros:

  • - Negro, vai, pega tuas coisas e vai embora daqui. Tu agora és um homem livre!
    E o negro inocente e incrédulo retruca:
    - Mas senhor, ir pra onde?Eu não tenho para onde ir. Aqui eu tenho um canto para dormir. E para onde vou terei? Aqui eu tenho as sobras de vossa mesa, e para onde vou terei?
    Então o senhor diz ao seu ex-escravo:
    - Isso agora já não é problema meu. Se quiseres continuar a trabalhar aqui, dou-te 380 reais (salário mínimo atual) e você vai se virar com isso: comer, beber, se vestir, pagar aluguel, gás, luz, água, enfim... É responsabilidade tua agora!”

Ora, senhoras e senhores: sem ter como viver dignamente o negro edifica a favela e tenta sobreviver. Agora todos da família precisam estar juntos num processo de ajuda mútua pela vida. Pai, mãe, filhos; todos são empurrados para o mercado de trabalho que avilta os trabalhadores e ocupam todo o tempo que pode desse novo homem livre. Eles precisam suportar uma carga horária de 12, 14 horas diárias de trabalho – o que era comum a todos os trabalhadores no início do Século passado – em atividades sem nenhuma qualificação e de baixíssimos salários. O que lhes restam para a educação? Como enviar seus filhos à escola com os parcos salários que recebem?

Já nos anos de 1930 começa o processo industrial no Brasil. Novamente a discussão do processo educacional passa essencialmente pela formação de uma mão-de-obra que pudesse atender a demanda do mercado. Aqui podemos incluir uns poucos negros que já atuavam na indústria, mas é bom lembrar que estamos no paradigma fordista de produção, com atividades especializadas; logo, ao trabalhador, nem precisava aprender a ler ou a escrever, mas a executar determinada tarefa na indústria. Era o adestramento que resultava na repetição dos atos, bem representado no filme “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, e na obediência à hierarquia industrial (e por que não na sociedade?).

Os negros só alcançaram oportunidade de escolarização a partir da mudança no paradigma de produção industrial. A partir da década de 1970 surge o sistema japonês de produção. Era o modelo flexível. Neste paradigma os trabalhadores são chamados à educação. Para a indústria não basta que o trabalhador saiba executar uma tarefa, mas que seja capaz de responder às demandas emergentes. Logo ele precisa ser capaz de aprender a aprender. Não basta treinar o trabalhador, mas educá-lo. Com efeito; se na indústria negros já operavam máquinas com muita eficiência e obediência, não era lucro para a empresa abandoná-lo, considerando que ele era um operário útil e perfeitamente capaz. Daí que era preciso educá-lo também. Então o negro vai pra escola. Mas esta escola é a mesma que Savianni (1999) identificou como crítico-reprodutivista. Ou seja, é aquela que reproduz a sociedade tal como ela é e o negro, assim como os brancos, porém pobres, são educados para atender ao mercado de trabalho e para servir aos dominadores, aos brancos privilegiados.

Até aqui, os negros (e os brancos pobres) só tinham acesso àquilo que o branco pertencente à elite permitia que ele ascendesse. Então a escola pública, que foi o centro de homéricas disputas por seu controle, ora pela igreja com o objetivo de catequizar todo mundo pra continuar sustentando a luxúria com raízes no Papa Pio XIII, que para construir a Basílica de São Pedro vendia indultos até para os já mortos, ora pela elite que buscava usurpar como abutres os parcos recursos públicos para a educação, ou por educadores que lutavam por uma educação universal e democrática. O Estado fazia o papel de mediador destas disputas e procurava contemplar tanto a igreja como às elites. E os educadores? Bem, os educadores continuavam a lutar –e bravamente! Alguns avanços com Anísio Teixeira, discípulo declarado de Jonh Dewey e lá vinha o Estado autoritário a retroceder o processo. E os negros, como os brancos pobres, se dedicavam ao trabalho numa incessante luta pela sobrevivência, não encontravam tempo – e nem tinham consciência, para se envolverem numa luta política por uma educação plena, democrática e para todos; poucos eram os que se atiravam à luta pela liberdade e igualdade sem o medo da chibata que lhes marcavam o corpo e a alma e dos projéteis das carabinas e espingardas que lhes tiravam a vida.

A luta desenvolvida bravamente por verdadeiros democratas, homens e mulheres que defendiam equidade social e verdadeira liberdade para todos e todas preocupava o Estado. Este, numa tentativa de calar as poucas, mas vibrantes vozes humanizadoras, cria o MOBRAL para alfabetizar todos e todas que não conseguiram o sucesso da matrícula escolar. Eu vivi um tempo em que famílias inteiras dormiam dias na fila em frente a uma unidade escolar para tentar matricular um filho. Fui vítima deste processo excludente caracterizando verdadeiro apartheid educacional. Eram poucos os negros e negras que se aventuravam em busca de um lugar neste ambiente criado por brancos e para os brancos. Os que conseguiam a matrícula tinham que suportar um sistema que inculcava a obediência, a subserviência e o zelo pelo sistema ideológico.

O gráfico educacional possível de ser construído é uma vertiginosa curva sempre ascendente para os brancos e imperceptível para os negros. O que precisa ser feito para que possamos tornar essas linhas como sendo uma só, numa ascendente sem distinção entre brancos e negros? No caso da educação, não é possível – e nem admissível – que se faça uma curvatura para baixo de qualquer das linhas que seja, mas é imperativo que se faça algo para que a curvatura da linha que corresponde à escolarização dos negros e negras alcance àquela que corresponde a escolarização dos brancos. E porque penso assim? Ora, senhoras e senhores. Sempre que se encontra um negro ou negra (branco ou branca pobres) nas ruas, nos sinais (semáforos) ou nas calçadas e praticando um delito, ainda que para a sua sobrevivência, toda a sociedade de brancos ricos faz ecoar as mais severas críticas ao Estado, pois aí está a exigir o papel do Estado, uma atitude repressora, capaz de pegar todos e todas e mete-los em instituições que mais colabora para a radicalização da criminalidade que para a educação e socialização destes marginalizados. O que esta sociedade quer não é uma educação que ajudem pobres, negros e negras a superação da sua condição de marginal para uma integração social. Eles querem um Estado que reprima sem mudar o atual estado de coisas.

O desespero desta sociedade hipócrita é a possibilidade de ver pobres, negros e negras praticando medicina, projetando prédios, descobrindo coisas sobre as formas de vida, construindo conhecimentos e modificando a cultura euro-hegemônica. Daí que esses incentivos do tipo BOLSA FAMÍLIA para manter meninos e meninas em sala de aula; o programa PROUNI que garante bolsas para que os pobres, independente da cor da pele, possam ingressar no curso superior e a política de COTAS para estudantes da rede pública e NEGROS e NEGRAS tenham vagas nas instituições públicas que historicamente só serviu aos ricos faz sentido. Cada pobre, negro ou negra numa Universidade Pública significa uma vaga a menos para os ricos. E é isso que está aterrorizando essa gente toda. Então apelam para o discurso da competência. Aqui precisamos discutir uma outra questão. Pobre, sendo branco ou negro, tem que trabalhar. Então, quando no nível básico ou médio, só lhes restam a Escola Pública. Esta sim, a serviço dos ricos sempre foi de baixa qualidade. Então o pobre, branco ou negro, sai da Escola Pública e vai procurar trabalho. O ensino superior é um desejo, não um produto de primeira necessidade. O trabalho vem antes da formação educacional por uma questão de sobrevivência, não de opção. Já o filho do rico estuda na escola privada, que garante bons salários e, portanto, atrai os melhores educadores. Quando terminam o ensino médio ingressam quase imediatamente num desses cursinhos pré-vestibulares intensivos. Parece até que os vestibulares das instituições superiores foram elaborados pelos donos dos cursinhos pré-vestibulares. Daí que o pobre, aquele que saiu da Escola Pública fica em enorme desvantagem em relação ao filho do rico. Então, quem ocupa as vagas nas instituições públicas de ensino superior? Os filhos dos ricos. E por isso nestas Universidades sempre tiveram os melhores profissionais. A qualidade sempre foi emblemática. E por quê? Porque ali só estudavam os filhos dos ricos. Pobres? Um ou outro talvez. Então a Universidade Pública era um espaço inacessível para pobres, negros e negras. A Universidade Pública não funciona à noite, nos fins de semana. “Se essa gentinha quiser estudar que vá para a Universidade privada”.

Mas o programa de COTAS veio para derrubar essa barreira. Está aí pra dizer justamente que a Universidade Pública é para todos e todas. E se é para todos e todas, considerando que os ricos levam vantagens muito maiores que os pobres, negros e negras, precisamos ajustar os botões que equalizam esta injustiça. E para isto é preciso um processo para garantir uma inclusão de parte destes excluídos. Sei que isto tem tirado o sono de muita gente. Sei que tem aquele que financia propaganda argumentando queda na qualidade do ensino, injustiça com os ricos que alcançam melhores notas nos vestibulares e blá, blá, blá. Mas, se desejamos uma sociedade mais igual, mais humana; com menos gente nas ruas a mendigar pela sobrevivência temos que adotar um discurso deweyano: não basta garantir ao sujeito o direito de escolher, mas, também, garantir o acesso àquilo que ele escolheu. E não me venham com essa de que isso se resolveria com a criação de mais vagas nas Universidades Públicas, pois aí só estaríamos garantindo um maior número de ricos ocupando-as, deixando como única opção aos pobres, negros e negras, se quiserem, a universidade privada, dessas que são encontradas nos Shoppings de todo o país como se fossem mais uma lanchonete. É a literalização da Mcdonaldização educacional.

SAVIANI, DERMEVAL. ESCOLA E DEMOCRACIA : TEORIAS DA EDUCAÇÃO : CURVATUTA DA VARA, ONZE TESES SOBRE EDUCAÇÃO E POLÍTICA. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1986. 96 p.

Sábado, 5 de Julho de 2008

Vocês já ouviram falar dele?
.
Deixem-me desnudá-lo à todos.
por Rildo Ferreira [ferrera13@hotmail.com]

Senhoras e Senhores.
Há algum tempo eu resolvi participar de um debate neste mundo virtual. Como eu estava produzindo muitos trabalhos acadêmicos, em grande parte deles eu procurava fundamentar com a literatura produzida por Paulo Ghiraldelli Júnior, este que se diz filósofo de São Paulo. Tivera eu o conhecido a mais tempo e jamais o teria lido, até mesmo em bibliotecas. O cara não tem pudor; não tem escrúpulos; não tem educação; e o que é pior, não aceita o diálogo adverso, demonstrando profundo desrespeito às pessoas que divergem dele.

O primeiro dos meus artigos divergindo da opinião deste crápula amoral eu dei o título de um dos seus artigos escrito nO Estadão, onde se podia ler O MEC NÃO PÁRA DE ERRAR (Leia Aqui). Ora, o boçal do filósofo não procurou usar de uma tréplica comum aos diálogos. Eu até esperava que ele procurasse me convencer do contrário. Mas o que ele fez foi me ofender gratuitamente. Eu fiz novo artigo com o título PAULO GHIRALDELLI Jr. “NÃO SOU BURRO!” (Leia Aqui). Recebi novos insultos, mas desta vez com um convite para fazer parte do grupo do Portal Brasileiro de Filosofia – e eu aceitei! –. Desde então percebi que sua estupidez e arrogância não se limitavam às minhas críticas, mas a todos os que dele divergiam.

Eis que no primeiro dia de julho último uma colega deste grupo resolve responder a um artigo do filósofo publicado no jornal O Estadão sob o título de “O know-how para subir o morro”. Esta colega de quem sabemos apenas o nome escreveu o seguinte e-mail em resposta ao e-mail do grupo enviado pelo autor do artigo:
  • Ah! Paulo, penso que estamos todos muito longe da vida como ela é nas favelas do Rio de Janeiro, e olha que faço trabalho social há 40 anos. Se o estímulo financeiro resolvesse alguma coisa nossos Ministros, deputados, vereadores, juizes, desembargadores seriam pessoas idôneas. Diferente de você, acho que o Lula tem muito mais sabedoria do que essa simplificação que você fez, pelo menos dos nossos presidentes é o que mais entende do que é ser pobre. Agora concordo que ele não tem a dimensão do que acontece com o Rio depois de 16 anos de gestão do César Maia, mas aí também há um outro ponto. Lutamos por uma Constituição mais municipalista, no entanto, não movemos um dedo para exigir nossos direitos, propor outras soluções para o município, ou seja, não participamos de nada que diga respeito à vida em comum (Veiga, julho de 2008).

Vejam: esta é uma opinião de uma parte e da qual o sujeito tinha todo o direito de discordar. E mais: tinha todo o direito de deixar claro sua posição em relação ao assunto e de ser bastante enérgico, inclusive, se fosse o caso. Entretanto, isso não lhe dá o direito de desrespeitar e insultar aqueles que dele discordam. Mas não é isto que ocorre de fato, e o energúmeno descerra sua verborragia em ofensiva. Antes de dar provas desta faceta desse idiota de São Paulo, preciso dizer que não quero discutir o conteúdo do debate, já que, em se tratando das questões políticas, tem os que apóiam, os que são neutros e os que são contra, e cada um deles tem todo o direito de sê-lo. Logo, sob o ponto de vista dele, ele tem razão. Mas sob o ponto de vista da nossa colega Sandra Mayrink Veiga ela também tem razão. Então, deixamos o conteúdo à parte para mostrar o nível do diálogo que parte deste colunista “de esquerda” – como se declara – e que escreve nO Estadão (que me parece não ser uma linha editorial isenta de ideologia política, assim como não são os demais jornais de todo o país: ou se alinha ao governo ou se mantém contra o governo em exercício.). Pois bem. Então o cara responde assim a uma pessoa que participa (a convite) do grupo do Portal Brasileiro de Filosofia:

  • Date: Wed, 2 Jul 2008 12:34:31 -0300
    From: pgjr23@gmail.com
    To: portal-brasileiro-da-filosofia@googlegroups.com
    Subject: [PBF] Sandra trocou as bolas sim!

    (...)
    Agora, se você passou o ano de 2005 aqui, eu gostaria de saber como que você pode estar nesta comunidade e ficar com essa cara de pau. Será que você está dizendo, na nossa cara, que você apóia gente que rouba? Se é isso, então você é cúmplice. Teremos de botar você na cadeia. Ou você é uma maluca que fala qualquer coisa? Você não viu que o Zé Dirceu era formador de quadrilha? O julgamento dele não foi político, foi na justiça, você não acompanhou as provas? Você não viu o filme na internet, mostrando Lula conversando sobre assuntos bem próximos do que ocorreu, em conversa com a cúpula da campanha? Você faz parte disso? Ou você não viu nada, pois não quis ver? Ora, desinformação também dá cadeia! Pois você não pode ficar como o Lula e dizer "nao sabia de nada". Ele pode. Você não!
    Paulo [(os grifos são meus) Ghiraldelli, julho de 2008].

Sobre isso eu não vou comentar já que a própria Sandra educadamente o fez respondendo ao e-mail da seguinte maneira:

  • Sr. Paulo. Fiquei estarrecida com a sua resposta. Não "troquei as bolas" como o senhor disse querendo fazer parecer que não tinha entendido o que o senhor escrevera. Fiz apenas um comentário sobre o trecho abaixo desua matéria. Nunca pensei que fosse despertar tanta raiva, tanto ódio e desrespeito. O senhor disse: "A lição que o governo brasileiro deveria tirar disso é simples. O Exército na favela só tem uma chance de poder permanecer lá: é se elefor visto como quem está dando condições para programas realmente transformadores - para melhor - da vida da população. Mas para tal não basta que os programas sociais existam e funcionem bem. Isso é o básico. É necessário, além disso, um apoio maior ao próprio Exército para que o soldado tenha orgulho do que faz, tenha brio e, principalmente, tenha vantagens financeiras legais por aquela operação, ali, na favela. Ele deve ter um estímulo financeiro de modo a poder pensar duas vezes antes de ceder e estabelecer contatos com as gangues. E, principalmente, deve sentir-se seguro, deve ter claro que a sua família não estará na mira das gangues. Isso não é o que ocorre no momento". A política de segurança precisa de total reformulação inclusive no que diz respeito ao soldo dos soldados e policiais, queria frisar como meu e-mail, no entanto, que precisa mesmo é de outros valores assim como toda a sociedade brasileira. Discordei quando o senhor frisou o "principalmente, tenha vantagens financeiras legais por aquela operação". Era só esta a minha intenção já que a exacerbação do valor do dinheiro e do individualismo, no meu entender, tem sido catastrófica. Este é o centro da minha percepção do que ocorre no Riode Janeiro onde venceu a cultura do "pouca farinha, meu pirão primeiro" e a prática do "quero levar vantagem em tudo". Além disso, comentei que o senhor estava fazendo uma simplificação sobre a "sabedoria" do Lula. Era só uma opinião diferente da sua, mais nada.

Aqui sim merece um comentário. Vejam que Sandra argumenta, dialoga com respeito, sem ofender. O que ela faz é expressar um sentimento, um ponto de vista. Ela não quis dizer que o filósofo não tem o direito de emitir a sua opinião, seja ela qual for. Ela só está exercendo um direito de expressar a sua – e que nenhum idiotazinho metido à besta tem o direito de aniquila-lo. Daí que fui solidário à minha colega de grupo e faço um comentário, dentro do próprio grupo, sobre o que penso de Ghiraldelli. Disse o seguinte: Sandra, o Ghiraldelli tem razão. Este é um espaço para discutir um possível fim da era LULA. E não se trata de honestidade não, pois como você disse, há tantos que ganham muito dinheiro e isso não faz deles homens honestos. Eu votei no LULA, se fosse candidato de novo eu votaria nele novamente e, não sendo, votarei no candidato que o PT escolher.
Ora, se há roubo, ele como cidadão pode recorrer ao Ministério Público e denunciar os caras. E que a justiça se faça segundo os atos que ilicitamente, segundo Ghiraldelli, cometeram. Ele sabe, por exemplo, que tem dinheiro público depositado no exterior. Ora, por que não denuncia ao MP? Mas veja: este é um espaço dele, administrado por ele. Logo, quem não gostar do que ele disser aqui, não sentindo-se satisfeita com as ponderações adversativas, clica num link que tem no final do e-mail para se desligar do grupo. Quanto ao grupo ele já deixou claro que não é educador. Sua filosofia não significa debates onde a divergência é parte de toda que pressupõe diálogo para produção do conhecimento, do esclarecimento, da razão. Sua filosofia é impositiva: ele fala e você aceita ou cai fora.

Observem que deixo minhas impressões sobre o filósofo de São Paulo sem ofendê-lo, mas questiono a sua filosofia ou o seu modo de filosofar. Então ele emite dois outros e-mails. Neles estão caracterizados o caráter deste que, infelizmente, me dei ao trabalho de um dia comprar algumas obras de sua autoria. Vou transcrevê-los na íntegra para uma avaliação de todos e de cada um em particular.

  • [PBF] Rildo e mais mentiras de um safado
    De: portal-brasileiro-da-filosofia@googlegroups.com em nome de Paulo Ghiraldelli Jr (pgjr23@gmail.com)
    Enviada: quarta-feira, 2 de julho de 2008 18:34:30
    Para:
    portal-brasileiro-da-filosofia@googlegroups.com

    Rildo fala mais mentiras!
    Rildo é outro que não passou em 2005. E pensa que eu, no Estadão, não denunciei o que há de bandalheira.
    Mais gente defendendo bandido. Rildo, crie vergonha na cara, você é um safado
    Paulo

    [PBF] Rildo é uma besta? Não, ele é apenas bandido mesmo. Da velha quadrilha do Delúbio. Esqueceram?‏
    De: portal-brasileiro-da-filosofia@googlegroups.com em nome de Paulo Ghiraldelli Jr (pgjr23@gmail.com)
    Enviada: quarta-feira, 2 de julho de 2008 22:27:50
    Para: portal-brasileiro-da-filosofia@googlegroups.com
    Rildo
    Quem defende os ladrões que todos viram na TV, inclusive com filmes NA REDE GLOBO, mostrando os caras do PT negociando propinas e vendo o Ministério Público pegando as provas contra Duda Mendonça, com você faz, não merece consideração. Você é daquelas pessoas que a gente deveria bater na bunda. Com cinta. Só não vou fazer isso porque sou um cara que não quer ser processado pela sociedade protetora dos animais.
    Sabe que animal que você é?
    Não, não burro não. É o FDP. O bicho brasileiro que defende quem rouba o outro irmão brasileiro.
    Para tipos como você, não devemos dar filosofia. Nem mesmo impositiva. Devemos dar tapa na cara. Você não vale o que come.
    Paulo (Ghiraldelli, julho de 2008 – grifos meus)

Eu nem vou me dar ao trabalho de comentar estes e-mails. Eles falam por si mesmos. Permito-me apenas apresentar publicamente o meu protesto à sua forma de tratar as pessoas, ainda que no meio virtual, considerando que ele é um cara estudado em muitas faculdades e suas teorias são motivos de grandes embates nas aulas de filosofia. Ora, a partir do momento em que me dei conta de seu verdadeiro caráter (e ele o tem?), sua filosofia para mim virou LIXO VERBAL.

Segunda-feira, 30 de Junho de 2008

O Acordo Ortográfico: bom ou ruim

para os povos falantes do Português?
por Rildo Ferreira [ferrera13@hotmail.com]



Estou abrindo este diálogo a pedido do meu amigo Almeida (Eugénio Costa), angolano apaixonado por sua terra e por sua cultura. O jornalista e blogueiro reclamou da minha ausência temporal e pediu que eu dissertasse sobre o assunto. Este desafio eu aceitei pois o que me estimula são os desafios. Mas eu nada sabia do acordo e pedi um tempo a ele para me informar sobre o tema.

Bem, eu estou propondo um grande debate com todos e todas que não tem medo de dialogar com o diferente, abrindo mão das suas vaidades patrióticas para discutir algo que é comum a mais de 250 (duzentos e cinqüenta) milhões de pessoas divididas em oito países: Portugal (primeiro a ser citado pela origem da língua), Angola (agora por ordem alfabética), Brasil, Cabo Verde, Guiné Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe e Timor Leste.

Não é meu propósito defender o acordo [e nem ser contra!], mas discutir suas propriedades e analisar os interesses explícitos e não-explícitos daqueles que se manifestam a favor ou contra o acordo. Eu espero deixar claro que o que eu defendo realmente é que cada povo fale a sua língua do jeito que melhor lhe proporcione uma qualidade de vida digna; superação das dificuldades e resolução dos problemas emergentes; condições para o enfrentamento das coisas modernas do Século XXI; bem-estar social e familiar e lhe garanta paz interior e universal. Se alguma Lei ou convenção ferir esses princípios básicos para o homem e para a mulher, de qualquer idade, opção sexual ou religiosa, sou CONTRA por minha natureza humana. A língua falada deve ser para a promoção da paz interior, social e universal de todos e de todas.

Claro que há interesses comerciais, diplomáticos e culturais envolvidos neste acordo. Mas é por isso que ele é UM ACORDO. Vejamos o significado de acordo segundo Aurélio Buarque de Holanda, lexicógrafo, filólogo, professor, tradutor e ensaísta brasileiro:
Acordo(ô) [Dev. de acordar.]
Substantivo
masculino.
1.Concordância de sentimentos ou idéias; concórdia.
2.Harmonia,
concordância, consonância, conformidade: “Escobar confessou esse acordo do interno com o externo, por palavras tão finas e altas que me comoveram” (Machado de Assis, Dom Casmurro, p. 265).
3.Composição (6).
4.Combinação, ajuste, pacto.
5.Conhecimento inteiro, resultante do perfeito uso e domínio dos sentimentos; consciência:
“Fez-se-lhe rubro o pálido semblante, / Tornou-se-lhe o olhar mais chamejante / E, sem acordo, ruiu, tombou no chão...” (Augusto Gil, Alba Plena, p. 34.)
6.Tino,
prudência, tato, discrição. [Pl.: acordos (ô). Cf. acordo, do v. acordar.] Acordo de cavalheiros. 1.
Entendimento ou acordo em que as partes, cordialmente, dispensam formalidades legais, garantindo-se pela palavra empenhada. [Us., não raro, ironicamente.]

Notem que Acordo significa uma compreensão de todas as partes onde o que se coloca é comum e aceito por todos. Isso pressupõe o romper com a impositividade. Com efeito, quem será capaz de alcançar um acordo quando tenta IMPOR sua posição em relação ao outro? Ora, então o ACORDO ORTOGRÁFICO entre os países lusófonos é um pacto com vistas a um objetivo que deve favorecer a todos os pactuantes. Se o Brasil, como dizem uns, fosse o único beneficiário do acordo, certamente ele não existiria. Logo, faz-se necessário entender porque está sendo concretizado este Acordo. Vejamos o que disse o doutor José Luiz Fiorim da Universidade de São Paulo sobre o assunto:


...a duplicidade ortográfica dificulta a difusão internacional do português, na medida em que os documentos dos organismos internacionais que adotam o português como língua oficial precisam ser duplicados, pois devem ser publicados numa e noutra ortografia; em que a certificação de proficiência de língua portuguesa não pode ser unificada; em que os materiais didáticos e os instrumentos lingüísticos, como dicionários e gramáticas, produzidos numa ortografia não servem para os países que adotam a outra e assim sucessivamente. Para acabar com essa situação esdrúxula, os países lusófonos assinaram, em 1990, em Lisboa, um acordo ortográfico. (Fiorim, 2008)
Este acordo era pra entrar em vigor em 1º de janeiro de 1994, após ser ratificação pelos países que tem a Língua Portuguesa como oficial. Até o momento somente o Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe ratificaram o acordo. “Assim, em princípio, ele está vigente. No entanto, se os outros países não o adotarem, frustra-se a idéia de unificação. Por isso, estamos em compasso de espera” (Idem).



Isabel Pires de Lima: deputada e ex-ministra da cultura de Portugal [foto editada: IOL-On-line]
O deputado europeu Vasco Graça Moura disse na audiência pública na Assembléia da República de Portugal que o “único objectivo real de toda a negociação do acordo... [ao suprimir na grafia as consoantes C e P - servirá para] homogeneizar integralmente a grafia portuguesa com a brasileira, desfigurando a escrita, a pronúncia e a língua que são nossas” ((Diário IOL, 07/4/08) grifo meu). Já a ex-ministra da cultura de Portugal Isabel Pires de Lima, num artigo publicado na edição em 02/6 no Diário de Notícias, periódico português, defendeu estender o prazo para 10 anos para a aplicação do Acordo, e neste intervalo propôs um “consenso diplomático” para a sua revisão, argumentando “razões técnico-linguisticas e culturais”, “razões político-diplomáticas e culturais” e “razões econômicas e culturais”. Em Cabo Verde, a doutora Ondina Ferreira, em artigo disponível na internet sob o título O Acordo Ortográfico do Nosso Desacordo? diz:


Por outro lado, no meio disto tudo, temos que reconhecer que a variante do Brasil é a que sai menos alterada deste novo Acordo ortográfico. Dizem eles que assim estão a internacionalizar e a fixar electronicamente (como eu escrevo e não ainda "eletronicamente" proposto no Acordo) a língua portuguesa. Isto para dizer também que o Brasil não é o dono da Língua portuguesa, como querem fazer crer alguns, por ser maior o número de falantes deles da Língua comum (Ferreira,
2008).
Ora, eis que apresento três versões contrárias ao acordo. Pelo menos, do jeito que está e no tempo que se apresenta. Antes de analisar caso-a-caso estas versões contrárias preciso fazer uma interrupção para apresentar uma tese sobre o que vem a ser a língua falada e sua propriedade social.

A língua é um instrumento que serve para que os homens e as mulheres, de qualquer idade ou sexo, opção sexual ou religião, de qualquer opção política ideológica ou qualquer outra razão dialética, possam se comunicar, fazendo-se entender e entender o outro, de tal forma que, ao fim e ao cabo, possam intervir no meio em que vivem buscando uma melhoria da qualidade de vida para todos e para cada um, com equidade social, respeito às diferenças e equilíbrio ambiental. Mas há muitos teóricos que confundem Língua e Gramática e tentam fazer acreditar que somente com o domínio da Gramática o sujeito é capaz de dominar a Língua. No Brasil, por exemplo, Pasquale Cipro Neto é um deles, assim como foi Napoleão Mendes de Almeida, falecido em 1998 (Bagno, 2007). Ora, uma criança aos 3 anos de idade começa a falar. E fala muito! E o tempo todo! E aos poucos vai dominando a Língua que é falada no meio em que vive. E o que significa dominar a língua que se fala? Significa compreender um conjunto de regras que o falante domina possibilitando-os a produzir frases ou seqüência de palavras compreensíveis e reconhecidas como pertencendo a uma Língua (Possenti, 2006). O que se espera do falante é que ele seja compreendido e que seja capaz de compreender o outro, ou seja, de estabelecer uma comunicação compreensível.

Bechara (1992), um dos mais importantes gramáticos brasileiros, introduzindo a sua moderna gramática portuguesa (p. 23-24) diz que a língua é um “instrumento de comunicação cotidiana, que, sem preocupação artística, tem a seu dispor os múltiplos recursos lingüísticos de entoação e extralingüísticos da mímica, englobados na ‘situação’ em que se acham falante e ouvinte”. E sobre a Gramática ele diz que cabe à ela “registrar os fatos da língua geral ou padrão, estabelecendo os preceitos de como se fala e escreve bem...”. E diz mais: “o gramático não é um legislador do idioma...”. Com efeito! Não é a gramática que vai determinar como um povo tem que falar. Vamos abrir uma pausa para ilustrar esta propriedade: o filme americano Nell, de Michael Apted, protagonizados por Judie Foster e Liam Nieeson, retrata a vida uma jovem que viveu isolada da sociedade em meio a uma floresta longe da civilização urbana sem conhecer outra pessoa até a sua idade adulta desenvolvendo um dialeto próprio. Como foi que ela desenvolveu um dialeto próprio? Ora, vivendo ela e a mãe isoladas da civilização, e tendo sido sua mãe vítima de um sinistro que comprometeu a sua fala, o modo como a mãe se comunicava com a filha foi o modo internalizado por Nell para responder, comunicar, falar com a mãe, de tal maneira que se compreendiam perfeitamente. Logo, Nell sabia falar o seu dialeto com perfeição mesmo sem uma Gramática que a normatizasse.

Voltemos ao Acordo Ortográfico. A Gramática que normatiza a escrita não é determinante para normatizar a língua falada. É impossível escrever como se fala! Vejam: esta minha exclamação é finalizada com o sinal gráfico de exclamação. Mas é impossível àquele que a lê exclamar exatamente como eu a exclamei quando a expressei oralmente. Isso quer dizer que na escrita há uma tentativa de reproduzir a fala. E procuramos fazer isto de tal maneira que aproximamos a escrita do modo como falamos, e não o contrário. Então, se quero dizer cinqüenta –com o trema na vogal u; mas procurando me fazer entender que é o numeral que sucede o quarenta e nove e antecede o cinqüenta e um, se elimino o trema, o sentido continuará o mesmo, e isto não vai alterar a forma como eu falo.

O Brasil e os brasileiros não podem ter a arrogância de querer unificar o idioma falado nos países lusófonos [e nem é isto o que propõe o Acordo Ortográfico!] porque, nem mesmo no Brasil há uma unicidade da língua falada, embora a ortografia gramatical seja a mesma nos 26 Estados e no Distrito Federal que compõem a Federação. Permitam-me explicar um pouco melhor isto limitando o exemplo para não incorrer em injustiças aos muitos dialetos falados no território brasileiro: em todo o país escrevemos o numeral 8 da seguinte maneira: oito. E assim, simplesmente é falado em quase todo o país, mas em alguns (se não todos) Estados do Nordeste sofre uma variação em função da palatização e é falado otio ou oitio. E eu afirmo que só diz que o nordestino fala errado aquele que é impregnado de preconceito lingüístico.

Daí que o deputado português Graça Moura atribui ao Acordo uma desfiguração da língua portuguesa falada em Portugal e da pronúncia (ver citação anterior).Vou fazer um esboço para entender isto. Em Portugal e nos demais países africanos que falam a Língua Portuguesa serão suprimidas as consoantes mudas “C” e “P” ("acção"; "director"; óptmo) e o h inicial de palavras como húmido. Como disse a cabo-verdiana doutora Ferreira:
...às normas fixadas no Acordo e para vos ser sincera, custa-me ter de escrever, na minha variante da língua portuguesa, "ação" em vez de acção, "ator," em vez de actor, "ativo," em vez de activo, ou "ótimo," em vez de óptimo ainda que me justifiquem que nesta última na primeira grafia já lá está o acento tónico grafado e que abre a vogal sem necessidade da consoante "p" muda no caso. Acontece que toda a palavra carrega uma memória com ela. Uma memória etimológica, histórica que me explica e que me remete ao étimo latino, e à filiação do vocábulo.” (Ferreira, 2008)

a supressão destas consoantes, ao meu ver, e mesmo sem conhecer fundamentalmente o léxico e a sintaxe da língua falada em Portugal e nos demais países luso-africanos, pressupõe uma alteração no modo de falar. Nesses países, pelo que pude entender, as consoantes são identificadas foneticamente na palavra quando falada. Então o Acordo mesmo que unifique a ortografia, não unificaria o léxico, a sintaxe ou a semântica; e se desejando unificar também o léxico, a sintaxe ou a semântica, há, sem dúvida, uma interferência cultural no idioma desses povos, isso seria o mesmo que impor uma cultura hegemônica sobre as culturas locais.

Segundo o Diário português IOL-on line, o deputado Graça Moura afirmou que o acordo só beneficiaria o Brasil. Aí eu pergunto: beneficiaria em quê, cara pálida? Vamos analisar outra referência feita ao nobre deputado no Diário IOL. Diz a matéria: “O deputado critica, entre outros aspectos, o facto de o Governo não ter consultado a Associação Portuguesa de Editores e Livreiros (APEL) e a UEP (União de Editores Portugueses) quanto à ratificação do acordo” (Diário IOL, 2008). Estranho o deputado não ter questionado uma possível consulta ao povo português, quem de fato deveria opinar sobre a questão, e não somente a APEL e a UEP. Aqui identifico uma defesa que o deputado faz em benefício destas instituições. E é legítimo que ele o faça! Mas que o faça de maneira explicita, sem escamotear sua intenção, já que há um motivo muito mais importante a ser defendido, que é a forma legítima de como estas comunidades falam entre si. Ora, a própria APEL fez uma comparação entre as obras de grandes tiragens nas versões portuguesa e brasileira, concluído que não há diferenças lexicais e morfológicas e, portanto, muito pouco vai mudar. Eu não acho que seja muito pouco. As alterações nas normas brasileiras são mais numerosas, mas o percentual atingido é menor do nosso vocabulário. A reforma afetará 0,5% das palavras no Brasil, e 1,6% nos outros países.

Uma ruptura aconteceu em 1911 quando o governo português fez, à revelia do Brasil, a primeira normatização oficial da língua portuguesa. Desde então, os dois países tentam reaproximar suas grafias diminuindo aos poucos as diferenças entre elas, em especial nas regras de acentuação. Se aplicado efetivamente, o acordo elimina com cerca de 90% das divergências ainda existentes. O estabelecimento de uma grafia única está sendo considerado importante por razões políticas e comerciais. Possibilitaria a adoção do português como língua oficial de órgãos internacionais e reduziria os custos de tradução de livros do Brasil para outros países. Aqui, talvez, esteja o cerne da questão e justifica a preocupação do deputado Graça Moura.

Quanto às preocupações da ex-ministra da cultura de Portugal Isabel Pires de Lima levando-a a propor um “consenso diplomático” para a revisão do Acordo, argumentando “forte desrespeito pela dimensão patrimonial da língua, nomeadamente a sua dimensão histórica etimológica” (Lima, 2008 – disponível na internet) faz sentido. O que não faz sentido nas palavras da deputada portuguesa é a alegação da “Lei de Bases do Património Cultural como um bem cultural, que, portanto, importa preservar e salvaguardar” (idem). Aliás, a própria Lei à qual ela se refere não considera as variações naturais que a língua sofre ao longo das idades. A língua é dinâmica e, portanto, vai se alterando com o passar dos tempos. Basta, para isto, recorrer aos escritos dos séculos anteriores e compará-los aos atuais e será possível constatar que o atual idioma português não é o mesmo de alguns anos antes.

No final do artigo da ex-ministra, ela chama a atenção para as dificuldades que as editoras portuguesas enfrentarão para conquistar “o mercado do livro no espaço lusófono, e muito especialmente nos PALOP” (idem) Ah! Sim. Agora entendemos a preocupação da ex-ministra. Aqui ela deixa claro qual é realmente a sua preocupação. Assim como o deputado Graça Moura, ela está defendendo (e é justo que assim o faça, repito!) os interesses das editoras portuguesas. Agora, convenhamos: porque a sua preocupação em conquistar o mercado do livro nos PALOP? Seria porque a concorrência levaria mais leitura, mais informação e melhor formação a preços justos para os países falantes da língua portuguesa? Seria porque mais informados, mais sábios, os ex-colônias se emancipariam de fato e, portanto, conquistariam mais autonomia diante de uma economia planetária? Os países luso-africanos não se beneficiariam com uma política editorial mais justa, menos escorchante? Ou será uma tentativa de perpetuação de manter os países luso-africanos dependentes de Portugal?

Voltemo-nos agora para Cabo Verde e para as preocupações da doutora Ferreira. Diz a doutora que a variante brasileira da língua portuguesa é a que sai “menos alterada” e que o “Brasil não é o dono da Língua portuguesa”. Tenho que concordar com a doutora que o Brasil e os brasileiros não são donos da língua. Aliás, quem é? Seria Portugal, como disse o deputado Graça Moura? Estou mais para concordar com o gramático brasileiro Celso Pedro Luft (2000) que disse que “não há propriedade privada no mundo das palavras. Elas são de todos, propriedade pública. Mais exatamente: as palavras são do povo, ‘vivem na boca do povo’, soma de todas as camadas sócio-econômico-culturais” (p. 16). Quanto às alterações, no Brasil ela é mais profunda na forma escrita. Falada, as alterações são ínfimas, modestas demais em relação aos outros países. Quero, entretanto, me deter num parágrafo do artigo em questão. Diz o artigo:
Retomando a questão da nova escrita, ou das alterações propostas, seguindo as bases do Acordo Ortográfico - são cerca de 1400 palavras, mas de uso frequente - poderá acontecer que com o tempo e a reabituação - alguém dizia que o pai dele escrevia Farmácia com "Ph" e que ele prendeu já com "F" - lá está, aprendeu, não foi uma alteração nos seus hábitos de escrita - possamos todos adoptar ou "adotar"? o novo modelo de escrita em toda a acepção (em que a vogal "e" é aberta e bem tonificada) ou aceção? (como da variante do Brasil que geralmente emudece a vogal "e"). O futuro ditará...

Ora, senhoras e senhores; aqui temos um clássico exemplo de que a gramática é que se atualiza com a variação da língua. A língua não tem que ser alterada pela gramática. O modelo europeu dos séculos XIX e XX determinava o uso do “Ph” para escrever palavras como farmácia. Mas o falante brasileiro acabou por abrasileirar também a forma de escrever aproximando a escrita da fala, como já abordei em parágrafo anterior. Então, o que a doutora chama de reabituação, ou de adotar uma nova forma de falar as cerca de 1400 palavras a serem alteradas com o Acordo, ao meu ver, só se altera na escrita quando se alterar, de fato, no modo de falar. Talvez, por isso somente, considero que o Acordo não seja exeqüível. De nada adianta dizer que todos vamos escrever ótimo, quando o falante cabo-verdiano, português, angolano, são-tomense, moçambicano, guineano, timorense continuarem a falar óptimo –pronunciando foneticamente o “P”.

Quanto às vogais serem abertas ou fechadas, isso no Brasil é muito comum. Um carioca (Rio de Janeiro) fala c[ô]légio, enquanto um nordestino (cearense, por exemplo) diz c[ó]légio. Mas ambos escrevem colégio. E no caso do exemplo dado pela doutora, se acepção se refere a significação, sentido; um paulista (São Paulo) diria ac[ê]pção (notem que neste caso o brasileiro utiliza o “P” tanto para escrever quanto para falar) com a vogal fechada, enquanto um paraibano (Paraíba) diria ac[é]pção com a vogal aberta, mas todos os brasileiros escrevem acepção. Então a discussão não deve se pautar na questão das vogais serem abertas ou fechadas, mas deve convergir para as palavras que serão alteradas na grafia e que provavelmente irão alterar o modo de falar das pessoas. Então a questão política é: qual o impacto que este Acordo Ortográfico causa na língua falada por uma nação? Por favor, esqueçam a questão quantitativo populacional e nos detenhamos na questão qualitativa cultural. Se no Brasil em nada altera no modo do brasileiro falar, por que em Angola os angolanos têm de suprimir as consoantes de suas falas? E não me venham com o argumento de que a alteração só se dá na ortografia, pois alterando a ortografia, certamente altera-se o modo de falar, pois há uma tendência natural das pessoas falar como se lê. Daí que ler ótimo, certamente falarão ótimo, sem o “P” que tradicionalmente usam ao falar. Parece que estou sendo contraditório ao dizer isto, já que anteriormente eu afirmei que a escrita é que tenta reproduzir a fala e não o contrário, não é mesmo? Mas, qual o brasileiro que vê escrito óptimo e lê ótimo? Se a escrita é que tenta reproduzir a fala, quem escreveu óptimo queria ser interpretado assim. Se isto vale para os brasileiros, para os povos português e luso-africanos o recíproca é verossímil. Passando a escrever ótimo, diretor, fato querem que esses povos falem ótimo, diretor e fato. E isso é provocar imperativamente uma violação em suas culturas.

Para finalizar, reconhecendo estar inconcluso este diálogo, eu não vejo sentido no Acordo senão o de proporcionar aos países luso-africanos uma maior oportunidade de acesso aos livros e revistas produzidos pelo Brasil que, por sua capacidade de produção, os fazem com valores mais justos e isso possibilitaria uma democratização na educação para todos e todas. Esta seria a grande preocupação de Portugal -perder esta fatia de mercado? Sendo ou não este o motivo da discórdia, o fato é que o Acordo já está valendo para os três países que o ratificaram: Brasil, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. E vale capenga, já que ainda há indefinições quanto ao hífen segundo Godofredo de Oliveira Neto, presidente do conselho diretor do Instituto Internacional de Língua Portuguesa (IILP), órgão da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). O fato é que seria muito interessante que todos os países que tem a Língua Portuguesa como oficial pudessem utilizar uma ortografia comum respeitando o modo de falar de cada um. E seria interessante porque, ao meu ver, os países lusófonos, sobretudo os mais pobres, poderiam se beneficiar com um volume maior de informações literárias e técnico-científicas, proporcionando a todos e a todas acesso ao saber epistemológico, se não gratuitos, a preços mais justos.

Referências Bibliográficas:

Bagno, Marcos. Preconceito Lingüístico: o que é, como se faz. 49a. ed. São Paulo. Loyola, 2007

Bechara, Evanildo. Moderna gramática brasileira: cursos de 1o. e 2o. graus. 34a. ed. São Paulo. Companhia Editora Nacional, 1992.

Ferreira, Ondina. O ACORDO ORTOGRÁFICO DO NOSSO DESACORDO? Cabo Verde: Expresso das Ilhas, 2008. Disponível na Internet no endereço http://www.expressodasilhas.cv/noticias/detail/id/3294/ acessado em 23/6/08 às15:17h.

IOL-On Line. Acordo deve ser estudado e depois rejeitado: Lisboa: IOL Portugal On-line, 2008. Disponível na internet no endereço: http://diario.iol.pt/sociedade/acordo-ortografico-vasco-graca-moura-carlos-reis-portugues-lingua/937190-4071.html: acessado em 25/6/08 às 16:25h.

Lima, Isabel Pires de. EM FAVOR DA REVISÃO DO ACORDO ORTOGRÁFICO: TRÊS ORDENS DE RAZÕES 'CULTURAIS’: Lisboa: Diário de Notícias, 2008. Disponível na internet no endereço http://dn.sapo.pt/2008/06/02/artes/em_favor_revisao_acordo_ortografico_.html: acessado em 25/6/08 às 14:45h.

Possenti, Sírio. Por que (não) ensinar gramática na escola. 16a. ed. Campinas, SP Mercado de Letras, 2006.

Luft, Celso Pedro. Língua e Liberdade. 3a. ed. São Paulo. Ática, 1996.
Fiorim, José Luiz. E Agora Portugal?: publicado na revista LÍNGUA PORTUGUESA, fevereiro de 2008. Disponível na internet no endereço www.marcosbagno.com.br/for_fiorin.htm acessado em 23/6/08; 14:28h.




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Dialogando acerca da Pesquisa e Prática da Educação
por Rildo Ferreira


I – Introdução
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Este texto tem por finalidade abrir um diálogo acerca da disciplina Pesquisa e Prática da Educação numa tentativa de identificar sua importância na formação acadêmica, levando em consideração os sujeitos que dela se utilizam, quer seja na mediação na práxis pedagógica, quer seja beneficiário dela.

Considerando o período da aplicação do nível II da disciplina, vou fazer um resgate dos períodos que antecedem este momento fazendo uma análise histórica para melhor compreensão da discussão acerca do assunto, aqui sim, tentando identificar as falhas no processo de formação acadêmica para, por fim, fazer alguns apontamentos que, ao meu ver, alcançariam melhores resultados sob o ponto de vista de quem aprende.

É preciso esclarecer que este trabalho não se ateve às opiniões de seu autor, mas procurou saber a opinião dos colegas de turma [e de outras turmas] a fim de fundamentar a análise pluralizando as propriedades críticas. Para que isto pudesse ocorrer, redigi um questionário e o distribuí a 62 colegas universitários, sendo em duas turmas no Campus Méier e uma turma no Campus Queimados da Universidade Estácio de Sá.

Vamos ao diálogo.


II - Os primeiros períodos na Universidade
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Chegar à universidade é um sonho que todo homem e toda mulher acalenta desde a sua juventude. Até bem pouco tempo este sonho era um privilégio de poucos. Estes já privilegiados por sua boa condição econômica. Grande parte dos que alcançavam a universidade dispunham de todo o tempo necessário para um aprendizado sistêmico, e assim, mesmo depois da conclusão do ensino médio, passavam um bom período em cursos pré-vestibulares intensivos que os distanciavam em vantagem dos que necessitavam trabalhar e pouco dispunham para o estudo.

Não quero discutir o mérito da questão, mas preciso dizer que em boa hora, numa tentativa de melhorar o nível de escolaridade dos brasileiros e brasileiras, o governo federal lança um programa [PROUNI – PROGRAMA UNIVERSIDADE PARA TODOS] para garantir bolsas de estudos integral e parcial, estas de 50% (cinqüenta por cento) do valor das mensalidades, para estudantes que concluíam o ensino médio nas escolas públicas levando-os ao ensino superior. Eis que me encontro beneficiário de bolsa integral deste programa.

Chegar à universidade foi impactante. Ora, eu esperava uma universidade viva, com professores e alunos produzindo conhecimento. Eu também esperava professores que adotassem uma postura didática que partisse da realidade dos alunos para se alcançar o conhecimento científico. O discurso era este! Mas, como disseram Barreto e Barreto (in GADOTTI e ROMÃO, 2007)
  • ...90 % dos educadores brasileiros, provavelmente por influência de Paulo Freire, dizem em seu discurso que o educando é sujeito no processo educacional. E no entanto quase todos que dizem isto têm uma prática educativa na qual tratam os educandos como objetos no processo (p. 82).
Ocorre então o primeiro choque cultural, como disseram alguns colegas em suas respostas ao questionário. Ora, vindos do ensino médio, de escolas públicas ou privadas, do meio de um público cuja língua falada é a mais popular possível, os professores, em sua maioria, adotam uma linguagem técnico-científica sem explicar o seu significado.

Bem, diriam uns, mas o aluno é universitário e nesta fase cabe à ele ser um pesquisador constante. Aí eu insisto na questão já abordada em parágrafo anterior. Quem está na universidade privada e estudando à noite é um operário que tem o seu dia ocupado com o labor. É verdade que ele precisa encontrar tempo para o estudo e dedicar-se, em parte, a pesquisas de caráter epistemológico. Mas daí o professor universitário procurar manter o distanciamento do aluno universitário é uma atitude que denota repugnância pela práxis educativa que ele adota no discurso. Este foi outro impacto na cultura acadêmica.

Lembro-me dos primeiros trabalhos produzidos a pedido dos professores. Quando foi pedido um fichamento sobre determinado capítulo de um livro, e sem as explicações pertinentes do que vem a ser um fichamento, eis que o resultado foi uma mescla de fichamento comentado, resenha e resumo. Não era possível caracterizar entre um e os outros modelos de trabalho acadêmico. Com efeito, não nos era possível fazer um fichamento como devia ser feito haja vista que não era do nosso domínio tal conhecimento. Talvez por isso uma colega ao responder o questionário sobre a importância da Pesquisa e Prática da Educação na sua formação ela diz “É uma disciplina de vital importância no currículo, pois nos ensina e nos orienta como confeccionar nossos trabalhos acadêmicos”. Esta resposta limitadíssima para conceituar a propriedade da disciplina tem uma razão de ser, já que no desenvolvimento dela é preciso conhecer como descrever uma pesquisa realizada, logo, o aluno tem que aprender a fazer fichamento, resumo, resenha e artigos. Mas a disciplina não se limita a ensinar como fazer estes trabalhos.

Dos 62 questionários distribuídos apenas 26 voltaram. Destes, somente 4 responderam que pensaram em desistir. A superação, segundo eles, posso resumir assim, se deu por conta da participação dos próprios colegas de turma que os ajudaram em novos conhecimentos. Um deles disse ter sentido brutal dificuldade em produzir os trabalhos acadêmicos. Os primeiros foram manuscritos. Ele não possuía e nem sabia utilizar um computador. Ora, mesmo com a universidade oferecendo laboratórios de informática para pesquisa e produção de material acadêmico, ele foi um dos que não utilizou deste recurso no primeiro período. E porquê? Porque não lhe garantiram um ensinamento da utilização dos recursos disponíveis. Ele então se sentiu inferiorizado em relação aos outros que já dominavam esta tecnologia. A superação só se deu quando foi capaz de expressar este sentimento a um dos colegas da turma. Este passou a ajudá-lo na utilização do laboratório de informática e das muitas ferramentas que esta tecnologia proporciona aos seus usuários.

Mas isso não foi suficiente. O trabalho está pronto, mas e agora? Onde imprimir o produto acadêmico? Eis que a instituição apresenta duas fotocopiadoras, uma delas imprime os trabalhos acadêmicos, mas para isto, o pretendente deve dispor de recursos financeiros que garanta o pagamento de R$ 0,50 (cinqüenta centavos) por folha impressa. Então o aluno descobre que não pode contextualizar, teorizar, aprofundar a discussão do seu trabalho acadêmico porque pode não dispor de recursos para apresentá-lo ao professor. Então ele precisa economizar na produção acadêmica para economizar recursos.

Então os que responderam ao questionário viram, e eu os acompanho, a necessidade desta disciplina a partir do primeiro período tal a sua importância. Não só por sua propriedade de formar a todos e a cada um em pesquisador produtor de conhecimentos, mas também por sua praticidade na formatação do universitário para encarar com mais disposição o desafio acadêmico.

Entre os meus entrevistados teve quem pedisse mais liberdade para abordar os temas trabalhados na disciplina. Eu não compartilho deste princípio. O maior desafio é apresentar resultados com base naquilo que foi pedido. É claro que se parto de algo que me fascina o resultado pode ser brilhante, fundamentado, com bastante clareza e objetividade. Mas desenvolver a capacidade de trabalhar com aquilo que não é do nosso conhecimento é exatamente produzir um novo conhecimento. Aquilo que me fascina eu, de algum modo, já conheço. Aquilo que até então não me atraía eu deixava de lado, logo o desconheço. A academia deve proporcionar a todos e a todas conhecer o desconhecido. Por isso considero que o desenvolvimento da disciplina deve mesclar entre temas pré-definidos e temas livres para a pesquisa do aluno. Aqui eu não desprezo os saberes do educando. Aliás, eles precisam ser trabalhados para que este saber seja um saber cientificizado. Mas um modo de conhecer o desconhecido não elimina o outro.

Paulo Freire (1921-1997) sempre demonstrou acreditar na educação com a esperança que jamais abandonou como uma pedagogia voltada para todos e todas que ousam ensinar-aprendendo. Sempre afirmou que ensinar exige uma rigorosidade metódica, não a prática transferidora de conhecimentos, mas com uma didática que permite que os educandos vão se transformando em sujeitos da construção do saber ensinado, atribuindo méritos ao educador/educadora que ensina o pensar certo. Isto posto, diz, ensinar exige pesquisa. “Pesquisar para conhecer o que ainda não conheço e comunicar ou anunciar a novidade”, e pesquisar parte do pressuposto de uma curiosidade inocente, do senso comum que propõe uma superação o que implica uma rigorosidade metódica, transitando da curiosidade ingênua para uma curiosidade epistemológica. Logo, faz-se mister o respeito aos saberes do educando, “saberes construídos na prática comunitária” (Freire, 2005). E este ensinar a pensar certo, a absorver para aplicar a rigorosidade metódica são propriedades da Prática e Pesquisa da Educação. Sem esta disciplina, nossa formação acadêmica estaria comprometida com uma lacuna vazada no currículo.

III – Conclusão
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Para efeitos de conclusão desse diálogo, preciso reconhecer que alguns colegas têm razão para reclamar a presença da disciplina a partir do primeiro período com a adoção de um didática apropriada para preparar o intróito ao ensino acadêmico. Penso ainda que, não somente esta disciplina, mas a Informática Aplicada à Educação assim como Português I. Ora, a Prática e Pesquisa da Educação no primeiro período teria como elemento básico ensinar o que vem a ser fichamento, resumo, resenha, artigo e outros trabalhos acadêmicos, isso possibilitaria que os níveis subseqüentes passassem a adotar uma prática de pesquisa propriamente dita. No caso das outras disciplinas como Informática Aplicada à Educação, esta objetivando preparar aqueles que ainda não dominam os novos recursos tecnológicos, para um melhor aproveitamento da produção acadêmica. Do mesmo modo o Português I. Ora, no primeiro período deparamos com uma cultura distante da nossa realidade. Como disseram alguns dos meus entrevistados, muitos termos utilizados não fazem parte do vocabulário dos alunos do ensino médio, nem da prática diária. Logo, ao ouvi-los, ficaram perplexos e desorientados. Então, palavras como dialética, paradigma, epistemologia, etimologia, ética, entre outras, seriam colocados à discussão para o aprendizado da aplicação de cada uma delas no meio científico.

Sem estas questões preparatórias, o aluno pode até aprender, e vai! Mas funcionará como um carro cujo motor de arranque está com defeito. Só "pega no tranco". Daí ocorre um desnível. Uns se adaptam mais rapidamente que outros e, estando na mesma turma sente-se prejudicado por aqueles que não se adaptaram ainda. Estes, por sua vez, se sentem inferiorizados e distanciados da realidade acadêmica.


IV – Referências Bibliográficas
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GADOTTI, Moacir; ROMÃO, José E. (Orgs). Educação de Jovens e Adultos: teoria, prática e proposta – 9. ed. – São Paulo : Cortez : Instituto Paulo Freire, 2007. – (Guia da escola cidadã ; v. 5)

FREIRE. Paulo. Pedagogia da Autonomia [saberes necessários à prática do educando] Rio de Janeiro. DP&A, 2005.


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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008

Educador, educadora, você escolheu intervir neste mundo complexo
por Rildo Ferreira (ferrera13@hotmail.com)

Caríssimo educador (educadora).
Soube que acaba de ingressar na docência. Soube, também, de sua felicidade ao conhecer a turma com a qual trabalhará nos próximos meses com meninos e meninas do primeiro ano do ensino fundamental. Eu também fiquei feliz por você, assim como pelas crianças, conhecendo o seu caráter e sua afeição pelo inusitado, pelo diferente, bem como o imenso carinho que nutre pelas crianças.

Felizmente educador (educadora), você escolheu intervir neste mundo complexo, cheio de preconceitos, de desigualdades, de injustiças; de ausência de solidariedade e de ausência de respeito a todos e a cada um. Dirijo-me à você reconhecendo sua enorme capacidade em promover uma educação voltada para a emancipação do Ser. Talvez, por isto, me sinto no direito de rediscutir sobre as crianças como seres autônomos, cidadãs. Sujeitos sociais e históricos, marcado pelas contradições das sociedades em que estão inseridas (kraemer, 2004: p. 54). Como educadores, precisamos reconhecer que as crianças são capazes de imaginar, criar, produzir cultura. Entendê-las, é ver o mundo a partir do ponto de vista delas (idem).

Veja caríssimo: lidar com elas não é difícil. Se as respeitamos enquanto sujeitos históricos sem abrir mão do nosso papel de adultos e de educadores, estaremos contribuindo significativamente na sua formação. A sociedade moderna troca afetividade por coisas. “se outrora a criança era vista como um ser marcado pela ingenuidade, ignorância e indolência, cujo desenvolvimento dependia estritamente do controle adulto, através da disciplina e da moralização, hoje ela assume o lugar de protagonista, alvo privilegiado da sociedade do consumo” (Salgado, Eu tenho a força: os super heróis mirins nos desenhos animados e na vida [p. 79] in SOUZA, 2003). É crescente o distanciamento entre pais e filhos. Mães que se ocupam com as telenovelas; pais que não permitem o interromper o jogo de futebol e as crianças empurradas para os vídeos-games para se ocuparem com alguma coisa.

Educar as crianças é dialogar com elas. É preciso conhecê-las a ponto de dosar as tarefas que lhes atribuímos. Dialogar não significa abrir mão da autoridade, mas não se impor exigindo demais quando deveríamos poupa-las (Kraemer, 2004: p. 59). As crianças têm sido confinadas em seus minúsculos espaços e, em muitos casos, levadas a assumirem papéis que são próprios dos adultos. Ora, as crianças querem brincar, se relacionar com as outras, experimentar. E nessa relação da inocência vai internalizando cultura, modificando-a e produzindo outras. São curiosas por excelência. Cabe-nos, portanto, dialogar levando-as da curiosidade ingênua à curiosidade epistemológica (Freire, 1999: p. 45). Assisti ao filme Abril Despedaçado que apresentava um personagem que não sabia ler, mas diante das ilustrações de um livro, imaginava as histórias possíveis e as narrava para si mesmo. Esta capacidade inata das crianças precisa ser estimulada para a promoção de uma educação para a cidadania, para uma cultura de paz.

Quando elas nos chegam à escola, trazem consigo valores e saberes que precisam ser explorados e socializados com as demais crianças da classe. Nossa tarefa não é fácil! O salário é obsceno e as condições de ensino são precárias. Mesmo assim, toda a sociedade reconhece e deposita na educação a possibilidade de um futuro diferente do que hoje é. Quando escolheu ser educador (professor ou professora), você fez uma opção: a de educar para transformar este modelo perverso que destrói sonhos, corrompe a infância e compromete o futuro.

Estou na torcida educador: e cheio de esperança de que um mundo justo, solidário e fraterno ainda é possível. Boa sorte e sucesso nesta árdua, mas gratificante tarefa.

Seu amigo,
Rildo Ferreira


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia [saberes necessários à prática do educando] Rio de Janeiro. DP&A, 2005.

JOBIM E SOUZA, Solange. Educação@pós-modernidade. Ficções científicas & Crônicas do cotidiano. 1. ed. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2003. v. 1. 130 p.

KRAMER, S. Educar para a cidade-escola. Revista de Educação CEAP, v. 44, p. 53-63, 2004.


Abril Despedaçado: Filme de Walter SALLES: adaptação para o cinema foi realizada por Walter Salles, Sérgio Machado e Karim Aïnouz, produzido por Arthur Cohn.